Carta pastoral de D. Mauro Lepori para o tempo de pandemia (II)

Esta carta pastoral, a princípio endereçada às comunidades monásticas, se dirige igualmente ao círculo mais amplo de vocacionados e amigos da vida contemplativa. Pois, no fundo, ela re-propõe o retorno a Deus pela porta que a Providência nos abre no momento presente. Dentro da proposta da Carta, quais seriam, ao seu ver, os pontos mais pertinentes? Como podemos colocá-los em prática?

“Parai e reconhecei que eu sou Deus”

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Caríssimos irmãos e irmãs,

A situação que surgiu com a pandemia do coronavírus me impele a realizar um contato com todos vocês através desta carta, como sinal de que estamos vivendo esta situação em comunhão, não somente entre nós, mas com toda a Igreja e o mundo inteiro.

Para o benefício de todos

O que esse momento dramático nos pede referindo-se à nossa vocação monástica? Através desta provação universal, a que Deus nos chama como cristãos, particularmente, como monges e monjas? Que testemunho somos chamados a dar? Que ajuda específica somos chamados a oferecer à sociedade, a todos os nossos irmãos e irmãs no mundo?

Penso aqui na expressão da Carta da Caridade (o documento fundante da Ordem Cisterciense, n.d.e.) que sublinhei muitas vezes durante o ano passado, quando celebramos o IX Centenário da Carta da Caridade: Prodesse omnibus cupientes – desejosos de beneficiar a todos”. (cf. CC, Cap. I). Que benefício somos chamados a oferecer a toda a humanidade neste momento preciso?

“Parai e reconhecei que eu sou Deus”

Talvez a nossa primeira tarefa seja aquela de viver esta circunstância dando-lhe um sentido. Afinal de contas, o verdadeiro drama que a sociedade está vivendo atualmente não é tanto ou apenas a pandemia, mas as suas consequências em nossa existência cotidiana. O mundo parou. As atividades, a economia, a vida política, as viagens, o entretenimento, o esporte pararam, como para uma Quaresma universal. Mas não só isso: por todo o mundo, a vida religiosa pública também parou, a celebração pública da Eucaristia, todos os encontros e reuniões eclesiais, ao menos aqueles em que os fiéis se encontram fisicamente. É como um grande jejum, uma grande abstinência universal.

Esta parada imposta pelo contágio e pelas autoridades é apresentada e vivida como um mal necessário. De fato, o homem contemporâneo já não sabe mais parar. Ele só para se for detido. Parar livremente tornou-se quase impossível na cultura ocidental hodierna, globalizada. Nem mesmo nas férias se para realmente. Apenas os contratempos desagradáveis conseguem nos deter no curso de nossa pressa de tirar cada vez mais proveito da vida, do tempo, e muitas vezes também das pessoas. Agora, no entanto, um contratempo desagradável como esta epidemia parou quase todos. Os nossos projetos e os nossos planos foram cancelados, e não sabemos por quanto tempo. Também nós, embora vivamos uma vocação monástica, talvez enclausurada, quanto nos habituamos a viver como todos, a correr como todos, a pensar em nossa vida sempre nos projetando para um futuro!

Parar significa reencontrar o presente, o momento de viver o agora, a verdadeira realidade do tempo e, portanto, também a verdadeira realidade de nós mesmos, da nossa vida. O homem vive apenas no presente, mas somos sempre tentados a permanecer apegados ao passado que já não existe mais ou a projetar-nos para um futuro que ainda não existe e talvez nunca venha a existir.

No Salmo 45, Deus nos convida a parar e reconhecer a Sua presença entre nós:

“Parai e reconhecei que eu sou Deus, exaltado entre os povos, exaltado sobre a terra. O Senhor dos Exércitos está conosco, a nossa fortaleza é o Deus de Jacó”.

Salmo 45,11-12

Deus nos pede para pararmos, mas não o impõe. Ele quer que paremos e permaneçamos livremente diante d’Ele, por opção, isto é, por amor. Ele não nos detém como a polícia que prende um delinquente em fuga. Ele quer que paremos como se para diante da pessoa amada, ou como se para diante da terna beleza de um recém-nascido que dorme, ou de um pôr-do-sol ou de uma obra de arte que nos enche de admiração e silêncio. Deus nos pede para pararmos reconhecendo que a Sua presença para nós preenche todo o universo, é a coisa mais importante da vida, que nada pode superar. Parar diante de Deus significa reconhecer que a Sua presença preenche o instante e, portanto, satisfaz plenamente o nosso coração, em quaisquer circunstância e condição em que nos encontramos.

Viver a constrição com liberdade

O que isso significa na situação atual? Que podemos vivê-la com liberdade, mesmo que sejamos constritos. A liberdade nem sempre é escolher o que se quer. A liberdade é a graça de poder escolher aquilo que dá a plenitude ao nosso coração, mesmo quando tudo nos é tirado. Ainda que nos seja tirada a liberdade, a presença de Deus nos sustenta e nos oferece a suprema liberdade de podermos parar diante d’Ele, de reconhecê-lo presente e amigo. É o grande testemunho dos mártires e de todos os santos.

Quando Jesus caminhou sobre as águas para encontrar a seus discípulos em meio ao mar em tempestade, ele os encontrou incapazes de avançar por causa do vento contrário: “O barco (…) estava sendo sacudido pelas ondas: de fato, o vento era contrário” (Mt 14,24). Os discípulos lutam impotentes contra o vento que se opõe aos seus planos de alcançar a margem. Jesus vai até eles como somente Deus pode aproximar-se do homem, com uma presença livre de todas as restrições. Nada, nenhum vento contrário e nem mesmo nenhuma lei da natureza pode se opor ao dom da presença de Cristo que veio para salvar a humanidade. “Ao fim da noite, ele foi ao encontro deles caminhando sobre o mar” (Mt 14,25).

Mas existe uma outra tempestade que se oporia à presença amiga do Senhor: a nossa desconfiança e o medo: “Os discípulos ficaram perturbados e disseram: ‘É um fantasma’ e gritaram de medo” (14,26). Muitas vezes o que imaginamos com nosso olhar de desconfiança transforma a realidade em um “fantasma”. Então, é como se fôssemos nós mesmos a alimentar o medo que nos faz gritar. Mas Jesus também é mais forte do que esta tempestade interior. Ele se aproxima, faz-nos ouvir a sua voz, o som pacificador de sua presença amiga: “Imediatamente, Jesus falou-lhes dizendo: ‘Coragem, sou eu, não tenhais medo!’” (14,27).

“Aqueles que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!’” (Mt 14,33). Somente quando os discípulos reconhecem a presença de Deus e a acolhem como tal, isto é, param diante dela, o vento cessa de se opor contra eles (cf. Mt 14,32) e “imediatamente o barco tocou a margem para onde eles iam” (Jo 6,21).

Isso pode acontecer na situação de perigo e medo que agora estamos enfrentando diante à propagação do vírus e das consequências, certamente graves e duradouras, desta situação para toda a sociedade? Reconhecer nesta circunstância uma possibilidade extraordinária de acolher e adorar a presença de Deus em nosso meio não significa fugir da realidade e renunciar aos meios humanos que nos são apresentados para nos defender do mal. Isto seria um insulto para aqueles que agora, como todo o pessoal de saúde, se sacrificam pelo bem de todos. Também seria uma blasfêmia pensar que Deus nos envia provações e depois nos mostra como Ele é bom para nos livrar delas. Deus entra nas nossas provações, sofre-as conosco e por nós até a morte na cruz. Assim, revela-nos que a nossa vida, tanto na provação quanto no consolo, tem um significado infinitamente maior do que a resolução do perigo atual. O verdadeiro perigo que paira sobre a vida moderna não é a ameaça da morte, mas a possibilidade de viver sem sentido,de viver sem tender a uma maior plenitude de vida e a uma salvação maior que a mera saúde física.  

Esta pandemia, com todos os seus corolários e consequências implicadas, é então uma oportunidade para todos nós realmente pararmos – não só porque somos forçados, mas porque o Senhor nos convida a estarmos diante dele, a reconhecer que Ele, neste momento, vem ao nosso encontro no meio da tempestade das circunstâncias e das nossas angústias propondo-nos uma renovada relação de amizade com Ele, com Ele que, certamente, é capaz de deter a pandemia como acalmou o vento, mas que sobretudo nos renova o dom da sua presença amiga, que vence a nossa fragilidade cheia de medo – “Coragem, sou eu, não tenhais medo!” – e quer conduzir-nos imediatamente ao destino final e pleno da existência, isto é, Ele mesmo que permanece e caminha conosco.

Deveríamos viver sempre assim

Esta cena do Evangelho, bem como a cena do mundo conturbado de hoje, não deve parecer tão estranha para nós. Na realidade, a nossa vocação de batizados, como a nossa vocação monástica, deve sempre nos ajudar e nos chamar a viver assim. A situação atual lembra a nós e a todos os cristãos um pouco aquilo que São Bento diz sobre o tempo da Quaresma (cf. RB 49,1-3): deveríamos sempre viver assim, com essa sensibilidade ao drama da vida, com esse senso de nossa fragilidade estrutural, com essa capacidade de renunciar ao supérfluo para salvaguardar o que em nós e entre nós é mais profundo e verdadeiro, com a fé que a nossa vida não está em nossas mãos, mas nas mãos de Deus.

Também deveríamos sempre viver com a consciência de que somos todos responsáveis uns pelos outros, solidários no bem e no mal de nossas escolhas, de nossos comportamentos mesmo os mais ocultos e aparentemente insignificantes.

A provação que nos aflige deve nos tornar mais sensíveis às muitas provações que afetam outras pessoas, outros povos, que muitas vezes assistimos com indiferença o seu sofrimento e morte.

Um período de provação pode tornar as pessoas mais duras ou mais sensíveis, mais indiferentes ou mais compassivas. Afinal, tudo depende do amor com que vivemos, e acima de tudo, é isso que Cristo vem nos dar e despertar em nós com sua presença. Qualquer provação, mais cedo ou mais tarde, passa, mas se a vivermos com amor, a ferida que a provação deixa em nossa vida pode permanecer aberta, como no Corpo do Ressuscitado, como uma fonte de compaixão que jorra continuamente.

Ministros do clamor que implora por salvação

No entanto, há uma tarefa nós, monges e monjas, somos chamados a assumir de modo específico: a oferta da oração, da súplica que implora a salvação. Jesus Cristo, com o batismo, a fé, o encontro com Ele através da Igreja e o dom de uma vocação específica para estar com Ele na “escola do serviço do Senhor” (RB Prol. 45), chamou-nos a estarmos diante do Pai pedindo tudo em seu nome. Por isso, Ele nos dá o Espírito que, “com gemidos inexprimíveis”, “vem em auxílio de nossa fraqueza; de fato, não sabemos como rezar de modo conveniente” (Rm 8,26). Antes de entrar na paixão e morte, Jesus disse aos seus discípulos: “Eu vos escolhi (…) para que tudo aquilo que pedires ao Pai em meu nome, Ele vos conceda ” (João 15,16). Ele não nos escolheu apenas para rezar, mas para sermos sempre atendidos pelo Pai.

Nossa riqueza é então a pobreza de não ter outro poder senão o de implorar com fé. E este é um carisma que não é dado apenas para nós, mas para cumprir a missão do Filho, que é a salvação do mundo: “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Também a necessidade de salvaguardar ou recuperar a saúde, que todos sentem nesse momento, talvez com angústia, é uma necessidade de salvação, uma salvação que preserva a nossa vida de sentirmos sem sentido, lançados pelas ondas sem um destino, sem o encontro com o Amor que se nos dá a cada instante para chegarmos a viver eternamente com Ele.

Essa consciência de nosso compromisso prioritário de oração por todos deve nos tornar universalmente responsáveis pela fé que temos e pela oração litúrgica que a Igreja nos confia. Neste momento em que a maioria dos fiéis é obrigada a renunciar à Eucaristia comunitária que os reúne nas igrejas, quanto devemos sentir-nos responsáveis pelas Missas que podemos continuar celebrando em nossos mosteiros, e pela oração do Ofício Divino que continua a reunir-nos em coro! Certamente não temos esse privilégio porque somos melhores que os outros. Talvez isso nos seja dado precisamente porque não o somos, e isso torna o nosso pedido mais humilde, mais pobre e mais eficaz diante do bom Pai de todos. Devemos estar mais conscientes do que nunca que nenhuma das nossas orações e liturgias deve ser vivida sem nos sentirmos unidos a todo o Corpo de Cristo que é a Igreja, a comunidade de todos os batizados, a qual visa abraçar toda a humanidade.

À luz dos olhos da Mãe

Todos os dias, em cada mosteiro cisterciense do mundo, entramos na noite cantando a Salve Regina. Também isso devemos fazer pensando na escuridão que frequentemente, envolve a humanidade, enchendo-a de medo de se perder nela. Na Salve Regina, pedimos sobre todo o “vale de lágrimas” do mundo, e sobre todos os “filhos exilados de Eva”, a luz doce e consoladora dos “olhos misericordiosos” da Rainha e Mãe da Misericórdia, para que, em todas as circunstâncias, em todas as noites e perigos, o olhar de Maria nos mostre Jesus, nos mostre que Jesus está presente, nos conforta, nos cura e nos salva.

Toda a nossa vocação e missão está descrita nesta oração.

Que Maria, “vida, doçura e esperança nossa”, nos conceda de viver nossa vocação monástica com humildade e coragem, oferecendo nossa vida pela paz e alegria de toda a humanidade!

Roma, 15 de março de 2020.
3º Domingo da Quaresma

Fr. Mauro-Giuseppe Lepori O.Cist.

4 comentários sobre “Carta pastoral de D. Mauro Lepori para o tempo de pandemia (II)

  1. – O sentido da vida do homem (e, portanto, sua felicidade) está apenas em Deus: “O verdadeiro perigo que paira sobre a vida moderna não é a ameaça da morte, mas a possibilidade de viver sem sentido,de viver sem tender a uma maior plenitude de vida e a uma salvação maior que a mera saúde física.”

    – Usar este tempo que vivemos de provação em preparação para um novo recomeço no amor de Jesus Cristo: “Qualquer provação, mais cedo ou mais tarde, passa, mas se a vivermos com amor, a ferida que a provação deixa em nossa vida pode permanecer aberta, como no Corpo do Ressuscitado, como uma fonte de compaixão que jorra continuamente.”

    Sugestões do que posso fazer:

    1. Tomar a decisão de escolher (amar) sempre Jesus Cristo (somos livres e teremos que usar nossa liberdade).
    2. Para amar a Jesus precisamos conhecê-Lo (ninguém ama aquilo ou quem não conhece); logo, pôr em prática os meios para conhecê-Lo:
    – Rezar: ir à Santa Missa (lá recebemos Jesus dentro de nós), fazer Adoração Eucarística, rezar o Terço à Nossa Senhora, ler e rezar a Palavra de Deus (Lectio Divina), meditar as verdades eternas, fazer a Via-Sacra, ler livros e textos espirituais…
    – Viver como Cristãos, fazendo aquilo que Cristãos fazem: confessar-se, viver os Mandamentos, buscar as virtudes e evitar o pecado.
    – Unir-se a outros que também querem conhecer e amar mais a Jesus.
    – Buscar os especialistas no assunto sobre COMO conhecer e amar mais a Jesus Cristo: os Monges.

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  2. Três pensamentos de Dom Mauro me soam confortantes na conjuntura da Pandemia: a experiência de Deus acontecendo no hoje histórico, a companhia de Jesus que sofre com a humanidade e a Eucaristia celebrada diariamente nos mosteiros pelos que não a podemos assistir presencialmente. Sábia e profética reflexão.

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  3. O poema “Ausência” de Carlos Drummond de Andrade parece exprimir bem esse tempo pelo qual estamos passando: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. / E lastimava, ignorante, a falta. / Hoje não a lastimo. / Não há falta na ausência. / A ausência é um estar em mim. / E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, / que rio e danço e invento exclamações alegres, / porque a ausência, essa ausência assimilada, / ninguém a rouba de mim”. Assimilar a ausência! Deixar que ela nos envolva com sua pedagogia e nos revele quem somos, de quem e do que gostamos, quem é Deus para nós e o que verdadeiramente nos faz falta.

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