“Eu vim a este mundo para que os que não veem passem a ver” (1/2)

Quarto Domingo da Quaresma: Jesus cura o cego de nascença (Jo 9)

“Vai lavar-te na piscina de Siloé – que quer dizer Enviado. O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando” (Jo 9, 7)

Uma nova criação

No evangelho do domingo passado, Jesus prometeu à Samaritana o “dom da água viva”; neste evangelho do “cego de nascença” Ele revela-se como a “Luz do mundo”. Água e luz: dois símbolos batismais que nos acompanham nesta jornada para dentro do Mistério Pascal de Cristo.

Neste evangelho, Jesus e seus discípulos se deparam com um cego de nascença. E onde os discípulos viram somente castigo e infortúnio, Jesus viu uma oportunidade para “manifestar as obras do Pai” (Jo 9,3). Dito isso, ele misturou um pouco de terra e saliva, fez lama e ungiu os olhos do cego.

Estejamos atentos a este gesto simbólico. Os Santos Padres vêem nele uma alusão ao Livro do Gênesis, quando Deus criou o homem a partir da terra plasmada pelo Sopro Divino (cf. Gn 2, 7). Isto é: não estamos diante da mera cura de uma enfermidade física, mas da realização de uma nova criação. Eis, em suma, a obra de Deus, que o Filho de Deus deve manifestar ao mundo: a nova criação. A vida que renasce das cinzas, a luz que brilha nas trevas.

Em nosso mosteiro iniciamos recentemente um projeto de compostagem, e junto aos canteiros de composto orgânico os irmãos afixaram uma placa de madeira com o versículo do Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas”. Há aí não apenas humor, mas boa teologia também!

Vai lavar-te na piscina de Siloé

Assim que o Senhor Jesus ungiu os olhos do cego, ele lhe ordena lavar-se na piscina de Siloé – palavra hebraica que significa “Enviado”.

Há aí uma maravilhoso jogo de palavras, pois o nome da piscina remete diretamente àquele que é, ele mesmo, o enviado do Pai, como ele acabou de dizer aos discípulos (Jo 9, 4): “Enquanto é dia, devo fazer as obras d’Aquele que me enviou”. E ainda: “As obras que o Pai me deu a realizar dão testemunho que o Pai me enviou” (Jo 5, 36).

Por isso Santo Ambrósio diz aos seus catecúmenos (isto é, aqueles que estão sendo preparados para o sacramento do Batismo):

“Aproxima-te, tu também, de Siloé, isto é, d’Aquele que foi enviado pelo Pai. Deixa-te lavar pelo Cristo, para que possas ver. Vem para o Batismo, pois chegou o tempo. Vem depressa, para que possas tu também dizer: ‘Eu era cego, e agora vejo’. Para que possas recobrar a luz e dizer: ‘A noite vai adiantada e o dia já se aproxima; abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz’ (Rm 13, 12)”.

Irmãos e irmãs, a vida monástica não é outra coisa senão isto: a imersão nas águas da verdadeira Siloé, que é a consagração a uma forma de vida inteiramente batismal. Que nosso desejo não seja outro senão fazer a passagem da antiga para a nova criação, despojando-nos do homem velho e renovando-nos para a santidade do Homem Novo.

Mas qual a relação entre estas águas e a luz daquele que disse “Eu sou a luz do mundo”? É o que veremos na continuação deste artigo.

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O que significa para muitos de nós, que fomos batizados na infância, este mergulho nas “águas de Siloé”? Seria o Batismo apenas um evento histórico de nosso passado, ou antes seria um processo de renascimento espiritual que somos chamados a levar a termo? Será que Deus de fato nos dá a possibilidade de passarmos da antiga para a nova criação? Partilhe conosco seu pensamento e sua experiência, e vamos percorrer juntos este caminho.


  • Eu vim a este mundo para que os que não veem passem a ver” (1/2): Uma nova criação
  • Eu vim a este mundo para que os que não veem passem a ver” (2/2): Eu sou a Luz do mundo

15 comentários sobre ““Eu vim a este mundo para que os que não veem passem a ver” (1/2)

  1. Pax!
    Aproximemo-nos das águas brandas de Cristo e tenhamos o brilho nos olhos concedidos pelo próprio Cristo. Ele não só abre nossos olhos, como também faz-nos enxergar além de nós mesmos, libertando-nos do egoísmo; além dos outros, para ficarmos nossos olhos unicamente Nele; além de nossas ilusões, a fim de Ele seja a nossa verdadeira Busca.
    O que Ele quer na realidade? Ele quer que nossos olhos o contemplem tal como Ele é: Amor, Verdade, Vida, Caminho, Horizonte Certeiro de felicidade!

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  2. Quanto mais buscamos Jesus, nossa Luz, mais nossa vida terá sentido!
    Devemos testemunhar com nossas atitudes,o nosso batismo recebido; testemunhar o que Cristo é para nós,a Luz que nos guia. Assim como o farol guia os marinheiros para o porto seguro, Cristo nos guia com a sua Luz, ao encontro do Pai!
    No nosso batismo somos mergulhados nas “águas de Siloé” a partir daí somos, enviados, conduzidos, como diz tradução de Siloé. Enviados para sermos testemunhas vivas do Reino de Deus,e conduzidos por sua Luz.
    Como diz uma belíssima canção. ” Banhados em Cristo,somos uma nova criatura. As coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo”.

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  3. Interessante como o batismo se renova no seio espiritual diariamente… O quanto que o espirito a partir do momento que decidi buscar a verdade, já encontra a luz que guia pelo caminho.
    Penso eu que a luz sempre está lá, esperando o meu agir por buscar a verdade, para ela agir junto, conduzindo pelo caminho.

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  4. Realmente uma definição muito esclarecedora da Vida Monástica: “Irmãos e irmãs, a vida monástica não é outra coisa senão isto: a imersão nas águas da verdadeira Siloé, que é a consagração a uma forma de vida inteiramente batismal.” E, nesse sentido, muito interessante que um dos livros de Thomas Merton, no qual trata da Ordem Trapista, seja “Águas de Siloé”.

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  5. /o Batismo como a forma de passarmos para este mundo, nos libertarmos do pecado e entrarmos no Reino de Deus, o Reino instituído e glorificado pelo Cristo. O mergulhos nas águas, a libertação de nossa pouca visão para diante da Luz do Mundo, ou seja d”Aquele que nos criou e d”Aquele que nos libertou. Aproximar-se de tais águas, é transpor o renascimento para esta contemplação, olharmos com carinho o que o Pai está nos dando e nos resgatando. Não seríamos felizes sem o nosso olhar puro para a luz, mas não haveria luz sem a transformação e libertação. A libertação de cada um de nós, é um passo para a contemplação e vivência da proximidade de Deus, por quantas vezes não nos cegamos e nos esquecemos de nossas origens ou do que somos constituídos?

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  6. Seria o Batismo apenas um evento histórico de nosso passado, ou antes seria um processo de renascimento espiritual que somos chamados a levar a termo? Partindo da reflexão, esta imersão na vida em Cristo, é um processo a ser concluído no caminhar até o definitivo. Quando no caminho, tropeçamos, caímos, vem nos este Bondoso Senhor, novamente nos coloca sobre os olhos um novo barro, parece-me, que nos indica um sempre voltar a Siloé… Descer às águas do batismo, de um tempo de total assentimento Aquele que vem a nós… Que é por Deus enviado a nós… O batismo é isto, um processo a ser levado a termo, neste caminhar à eternidade… Vendo ainda somos como cegos, e graças ao Bom Deus, temos a Jesus nossa Luz para nós iluminar o caminho num renascer contínuo, não estamos prontos… ainda… Mas em processo de.

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  7. (…) Luzes e trevas, bendizei o Senhor;
    Águas do alto céu, bendizei o Senhor.
    Louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim. (…) Dan 3, 60. 66

    Os elementos água, luz e terra funcionam na sua interação, cada qual demonstra sua eficácia cooperando um com o outro, assim como nós. Não podemos ganhar a graça do batismo e nos isolar, estamos na comunidade que se chama Corpo místico de Cristo. E qual o resultado? Contribuir para fazer nova todas as coisas.

    Vencer o egoísmo e fazer parte do Reino de Deus, eis o efeito magno da água do batismo, tornando-se fogo de amor.

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  8. Salve Maria!
    São tesouros em forma de palavras este texto.

    Eu fui batizado em minha juventude, um fruto que se deu por graça de nosso Senhor e que foi um evento ocorrido há uma boa quantidade de anos, portanto um acontecimento que teve sua data e sua hora aqui nesta terra, mas também o seu registro na eternidade.

    Penso ser importantíssimo este momento guardado em Deus, o momento do Batismo: um nascimento para eternidade; um nascimento que traz consigo a graça de ser enviado; dentro de um contexto mais filosófico, este acontecimento trás consigo a resposta à questão da existência, pois recebi de forma sacramental a graça de ser imitador de Jesus Cristo e assim como ele ” fazer a vontade de nosso Senhor ”.

    Bom, percebo que ao passar das horas do dia não costumo recordar do batismo que aconteceu há tanto tempo, mas há uma lembrança em meu interior que me direciona ao sagrado, a busca de viver a eternidade do batismo e de certa forma o torna sempre presente nesta lembrança de Deus.

    Imagino que hajam etapas para enxergar verdadeiramente ”assim como quando despertamos e, ainda com preguiça, nos recusamos a nos colocar de pé e fazer o que deve ser feito”, então as etapas devem ser zelosamente realizadas para que o fim seja concretizado.

    Então, por mais que aquele pobre cego quisesse enxergar, isto não lhe seria possível devido a sua deficiência, mas o contato com Jesus e o registro do seu envio o vez ver realmente o sentido de sua vida, a verdade de sua existência, isto é, a possibilidade de ter uma nova vida, a vida com o verdadeiro sentido e a graça de habitar junto a nova criação.

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