A Samaritana junto ao poço: ícone da vida monástica

Terceiro Domingo da Quaresma: Jesus e a Samaritana no poço de Jacó

“Quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4, 14)

No primeiro domingo da Quaresma, vimos o Senhor Jesus emergir das águas do Jordão e ser conduzido pelo Espírito ao deserto, para enfrentar a tentação. No domingo seguinte, subimos com Ele o Monte Tabor para contemplarmos sua Transfiguração e a glória de sua divindade. No terceiro domingo, nos encontramos novamente no deserto, viajando da Judéia para a Galiléia, e nos sentamos à beira do poço do patriarca Jacó, na terra de Samaria. Era a hora sexta, e junto a este poço testemunharemos um dos diálogos mais encantadores de toda a Bíblia.

Era hora sexta…

Era a hora sexta quando Jesus se sentou à beira do poço, e a mulher samaritana se aproximou. Não é sem significado que seja precisamente a hora sexta: esta hora é a metade do dia, quando o sol está no seu zênite. Este ponto determina a passagem de uma parte a outra da jornada: o meio do tempo, assinalando um “antes” e um “depois”. Portanto, não se trata aqui de uma indicação meramente cronológica, mas de uma passagem simbólica do tempo da história para o tempo da salvação de Deus.

O encontro com Jesus no poço assinala a visita de Deus, a graça da conversão – da mulher samaritana, e nossa. Pois essa mulher à beira do poço, com seu cântaro vazio na mão, é cada um de nós.

É o momento do convite à renúncia a uma vida egoísta, superficial e longe de Deus e à decisão por uma vida de seguimento e ingresso na escola de Cristo. Por isso, mesmo que o relógio marque outra hora, em nossa vida será a hora sexta: é o momento de Cristo. Sempre que abrimos o coração ao Senhor e aceitamos o seu convite para entregarmos nossa vida a Ele, nos encontramos no poço de Jacó, à hora sexta.

Jesus e a Samaritana, ícone copta

Duas sedes que se encontram

Quando a Samaritana chegou ao poço, trazendo seu cântaro vazio, Jesus já estava lá. Ele estava à espera dela, para dirigir-lhe esta palavra: “Dá-me de beber”.

O tema da sede está no coração deste evangelho. Mas de que o Senhor tem sede? “Da salvação daquela mulher”, responderá São Bernardo. Ele tem sede da sua fé e do seu amor. Ele a instiga com palavras enigmáticas, ele desperta o desejo do seu coração. Ela pensava que sua sede era uma, mas Jesus a ajuda a descobrir que sua sede era bem outra, muito mais profunda e verdadeira.  Como dizia Bento XVI, comentando este evangelho: “Jesus sabe que a sede é a porta de acesso ao Mistério de Deus”. Precisamos, pois, tomar consciência da nossa sede, da nossa dor, da nossa distância de Deus, para que possamos desejar de todo o coração a água viva da salvação: “Aquele que tem sede, venha a mim e beba; de seu coração hão de correr rios de água viva” (Jo 7, 37-38).

Vejam que maravilha, irmãos: saciando nessa água a nossa sede, nós mesmos nos tornaremos uma fonte de água viva que jorra para a Vida Eterna (Jo 4, 14). Ou seja: seremos como o próprio Cristo. Alcançaremos assim aquela que os Padres Cistercienses consideram a suprema tarefa da vida monástica e da vida cristã: a restauração da Imagem Divina em nós, de modo a nos tornarmos “outros Cristos” no mundo.

Por isso a mulher Samaritana é, por sua sede e seu desejo, um belíssimo ícone da alma monástica. Como ela, rejeitemos as “águas mortas” com as quais tentamos, em vão, encher nossos cântaros vazios, e nos voltemos de todo o coração às fontes de água viva que brotam do coração de Deus. ⊕


Deste evangelho surge a inevitável pergunta: que água misteriosa é essa, da qual o Senhor fala? Certamente muitas são as respostas verdadeiras, segundo a “Hora Sexta” na vida de cada um… Perguntemo-nos, irmãos e irmãs: para mim, qual é essa água?

Quando Jesus nos diz que “a água que Ele dará se tornará em nós uma fonte que jorra para a vida eterna”, lembremo-nos que na celebração da Vigília Pascal, que se aproxima, a Igreja cantará a antífona “Vidi aquam egredientem de Templo”, da profecia de Ezequiel: “Eu vi a água vertendo do Templo” (ver Ezequiel 47,1). Haverá uma relação entre essas duas fontes miraculosas? (falaremos sobre isso no Tempo Pascal, mas lançamos desde já o convite a essa reflexão…)

27 comentários sobre “A Samaritana junto ao poço: ícone da vida monástica

  1. “Por isso a mulher Samaritana é, por sua sede e seu desejo, um belíssimo ícone da alma monástica. Como ela, rejeitemos as “águas mortas” com as quais tentamos, em vão, encher nossos cântaros vazios, e nos voltemos de todo o coração às fontes de água viva que brotam do coração de Deus”.
    Queremos também, Senhor, ter sede Vós, única Água viva que sacia nossas sedes. Ajudai-nos a rejeitar as águas mortas das quais nos viciamos em beber. Tenha misericórdia do vosso povo!

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    • _Águas mortas, águas mornas e águas paradas_ … são águas que nos mantem na zona de conforto, não nos mobiliza; Água Viva é o próprio Senhor, que não nos retém, não é, Paulo? mas que nos mobiliza e faz com que saíamos em missão. Aceitemos neste momento necessário a reclusão em nossas próprias casas para servir a Deus e nossa própria família. Parabéns pela sua reflexão.

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  2. A Samaritana escuta de Jesus que em meia caminhada quaresma em plena hora sexta senta-se no poço de Jacó : dar-me de beber. (E o poço de Jacó nos mostra em toda a Bíblia que é o lugar de encontro transformadores, onde as pessoas compreendem ou recebem uma missão para vida toda ). E neste evangelho podemos ver que o encontro da Samaritna e Jesus tiveram um diálogo da sede de Deus sobre q vida simbolizada pela água permitiu que a Samaritana visse sua própria vida e pudesse testemunhar a água viva saciaria sua sede para sempre .
    Em um mundo onde as pessoas buscam auto-suficiência Jesus se mostra necessitado de mossa sede por vos.
    Passamos por altos e baixos ao longo da vida onde sofremos instabilidade emocionais e e desta forma que Jesus entra e quer intimidade em nosso coração, passámos por provações para que Jesus possa renovar nossa confiança na misericórdia e somente ele pode nos converter e fazermos nos percorrer pelo seu caminho, recebendo desta forma a água viva para termos um nono espírito.
    Jesus é uma fonte que jorra para a vida eterna e sacia nossa sede

    Adorar a Deus em espírito e verdade 🙏

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      • Caro amigo Roberto,

        Acredito que esteja onde nosso coração deseja buscar a sede para conversão e remição de nossos pecados. O poço de Jacó só exemplifica que o único que possa matar e saciar nossa sede em espírito e verdade é Cristo, independente de crença . Cristo e água viva que jorra sobre nós!

        🙏

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  3. Compreender a hora sexta, o meio dia, o sol no ápice de seu esplendor, não temos como ignorá-lo e ele pela sua simples existência permite-se ser visto. O encontro é a revelação de um curiosidade, o Cristo cansado e sem necessidade pede água.. e a mulher de jarro vazio em busca de água pela sede, que não compreendia que a água que estava em busca era insignificante diante de outra oferta para sua sede. O despertar de Cristo está no caminho para reconhecer a nossa pequenez e nossa grandiosidade para caminhar, onde iremos orar? a questão em meio a conversa, já que pode saciar a sede, pode mostrar outros caminhos e dar outras respostas. Maravilhosas palavras e maneira de despertar em nós o que buscamos fora.

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  4. Toda a simbologia deste trecho é magnífica. Chama-me atenção que a revelação de Jesus se dá sempre em encontros, quase sempre individual, em experiências pessoais. Busquemos nós também esses momentos de intimidade.

    Conquanto ao significado da água: que pergunta difícil! Para mim e acho que deveriam ser para todas as comunidades: a água é o amor como balizador de tudo. Como diz o prólogo do do Catecismo da Igreja: “Este é sem dúvida o caminho melhor, que o mesmo apóstolo seguia quando fundamentava a sua doutrina e ensino na caridade que não acaba nunca. A finalidade da doutrina e do ensino deve fixar-se toda no amor, que não acaba. Podemos expor muito bem o que se deve crer, esperar ou fazer; mas, sobretudo, devemos pôr sempre em evidência o amor de nosso Senhor, de modo que cada qual compreenda que qualquer acto de virtude perfeitamente cristão, não tem outra origem nem outro fim senão o amor (12).” Lembrando que essa parte é um resquício do Concílio de Trento. Olha que antigo!!

    Menos julgamento, menos regra, e mais amor para tudo e todos. Em eventos extremos, como esse do Sars-CoV-2, precisamos lembrar-nos que somos um só. O planeta é um só. As fronteiras são virtuais, da nossa cabeça. Paz para todos os irmãos e irmãos 😉

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  5. Que profunda reflexão: “Quando a Samaritana chegou ao poço, trazendo seu cântaro vazio, Jesus já estava lá.”
    O cântaro estava vazio e Jesus já estava lá para enchê-lo. A iniciativa é de Deus: é Ele quem foi até lá, que “puxou” a conversa. E a Samaritana apenas abriu-se, deixou que Ele enchesse o cântaro, sua vida.

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