Subamos o Monte Tabor e sejamos Transfigurados

Segundo Domingo da Quaresma, “da Transfiguração”

Ontem celebramos o Domingo II da Quaresma, chamado Domingo da Transfiguração.

No Primeiro Domingo da Quaresma, fomos conduzidos pelo Espírito com Jesus ao deserto, o lugar do combate contra a tentação. Dilacerado pela fome, confrontado com a tentação, ali encontramos Jesus em sua dimensão humana. 

Já no Segundo Domingo, é outra a face de Jesus que é revelada aos discípulos. Aqui estamos na presença do Cristo resplandecente da luz divina, aquele que veio completar a lei e os profetas e trazer o Reino de Deus à terra. 

Considerados juntos, os dois episódios antecipam o Mistério Pascal: a luta de Jesus com o tentador introduz o evento da Paixão, e a glória de Seu corpo transfigurado antecipa a glória da Ressurreição. Por isso Bento XVI nos diz que os dois primeiros domingos da Quaresma são a espinha dorsal que orienta todo o itinerário da Quaresma até a Páscoa, e aliás toda o itinerário da vida Cristã. Pois esta consiste, essencialmente, no dinamismo pascal: da morte à vida.

Hoje em dia se fala muito sobre a necessidade de se ter um “projeto de vida”: em meio à crise de sentido da cultura moderna (pós-moderna, mais precisamente), o despertar do conformismo e da “normose” para buscar estabelecer uma vida que tenha um propósito se apresenta certamente como uma necessidade urgente e irrenunciável.

Eis a ótima notícia para os que desejam dizer “sim” àquele que “nos chamou das trevas para a Sua luz maravilhosa” (1Pd 2, 9): o caminho está aberto. Eis o nosso “projeto de vida”: deixando para trás a normose e o conformismo da “planície”, subamos o Monte Tabor, para tomarmos parte na Transfiguração do Filho de Deus e sermos divinizados n’Ele.

Movido por este santo propósito, São Bento convida seus monges a fazerem de suas vidas uma perene quaresma (Regra 49,1): pois toda a vida monástica é uma preparação para a Ressurreição Pascal.

Surge, então, a pergunta: estaria esta Transfiguração, essa Ressurreição Pascal, reservada somente para o “além”, para depois da nossa morte? Ou, ao contrário, Cristo deseja nos conduzir pelo caminho que nos permitirá viver essa Transfiguração já aqui nesta vida?

O que será que os Evangelhos e os Padres Monásticos dizem sobre isso? Partilhe conosco sua opinião, e vamos percorrer juntos esse caminho.

12 comentários sobre “Subamos o Monte Tabor e sejamos Transfigurados

  1. Sim, Cristo deseja nos conduzir pelo caminho que nos permitirá viver essa Transfiguração já aqui nesta vida. Um exemplo é o chamado que Ele nos faz em Mt 5, 43-48: pelo amor aos inimigos o ser humano é divinizado (transformado, transfigurado) de maneira que participa da Perfeição do Pai que é Perfeito (porque ama a todos). E a mesma deificação, divinização também ocorre (i) através da oração, conforme diz São Máximo Confessor: “O espírito unido a Deus pela oração e pelo amor adquire sabedoria, bondade, poder, benevolência, liberalidade […] em suma, tem em si mesmo os atributos de Deus.”; (ii) e por meio do Sacramento da Eucaristia: “Eis porque, na economia da graça, Ele se dá como uma semente a todos os crentes; nesta Carne composta de pão e de vinho, mistura-se a seu corpo, para permitir ao homem, graças à união com o Corpo imortal, participar da condição Divina que não conhece corrupção.” (São Gregório de Nissa).

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  2. A liturgia latina é de fato muito pedagógica, não havia me apercebido da ligação que há entre os Evangelhos da Quaresma da 1ª semana: tentações no deserto e a 2ª semana: transfiguração do Senhor, independente do ciclo (A B C). A aproximação entre ambos conduz certamente à reflexão sobre a dupla natureza de Cristo: verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Essa reflexão nos conduzirá ao ápice da História da Salvação: sacrifício e morte pela Paixão e ressurreição e glorificação formando assim a Páscoa do Senhor que trouxe a salvação à humanidade. A humanidade só pode ser divinizada n’Ele e se a Eternidade suplanta o Cronos, creio que esse processo se inicia no século, na conversão.

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  3. Fazendo um compilado desde o primeiro domingo de quaresma com a importância de Viver é ser chamado por Deus a entregar-se à sua palavra. Em que é um tempo litúrgico de conversão para nos preparar para arrependermos de nossos pecados, para que sejamos pessoas melhores melhores e mais próximas a Deus. A quaresma é um caminho que nos leva diretamente a Jesus Cristo escutando a palavra de Deus, orando, compartilhando com o próximo as boas práticas. Deus nos convida a viver uma série de atitudes cristãs.
    E tempo de perdão, reconciliação, onde a cada dia devemos tirar de nosso peito todo ódio e rancor.
    Precisamos acolher a misericórdia divina de Deus em nossos corações.
    No Antigo Testamento, Abraão é o exemplo disso. Tem de deixar toda segurança e confiar-se cegamente à promessa de Deus. Jesus, no Novo Testamento, é a plentitude dessa atitude .
    Antes de iniciar seu caminho rumo a Jerusalém, ele encontra Deus na oração, na montanha. Aí, Deus o confirma na sua vocação.
    E, ao mesmo tempo, dá aos discípulos segurança para que sigam Jesus: mostra-lhes Jesus transfigurado pela glória e proclama que este seu Filho é o portador de seu bem-querer, de seu projeto. Se incluímos em nossa meditação, aprendemos que nossa “santa vocação” não é um peso, mas uma graça de Deus. Portanto, não deve nos assustar.
    A prática cristã exige conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz o evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dele – até a glória, passando pela cruz. Assim como Abraão escutou a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.

    Isso é impossível sem renúncia (para usar um termo que saiu de moda). Renúncia não é algo negativo, mas positivo: é a liberdade que nos permite escolher um bem maior. Isso vale para ricos e pobres. De fato, o povo explorado deve descobrir a renúncia libertadora. Não privação, mas renúncia. O povo precisa renunciar ao medo, ao individualismo e a outros vícios que aprende dos poderosos. Então saberá assumir sua vocação. E os ricos e poderosos, se quiserem ser discípulos do Cristo, terão de considerar aquilo que possuem como um meio, não para dormir, mas para servir mais, colocando-o à disposição de uma sociedade mais justa e mais fraterna.
    E sim, com toda certeza Deus deseja fazer essa transfiguração em nossas vidas.

    A glória divina, resplandecente de luz, manifesta-se em Jesus acompanhada pelas nuvens e pela voz que deixa claro: ele é o Filho amado pelo Pai.

    Os detalhes da cena fazem pensar em Moisés, que voltava do monte Sinai com o rosto resplandecente por ter estado na presença de Deus. A luz intensa que brilha no rosto e nas vestes de Jesus, ao invés, não vem de fora. Vem dele mesmo, pois aquele Mestre que vivia no meio de gente pobre, nas periferias, é ele próprio o Senhor da história. Não se manifesta glorioso, na capital Jerusalém, a uma multidão de pessoas, mas numa montanha qualquer, a três discípulos.
    A transfiguração foi uma antecipação – momentânea – da glória do Senhor ressuscitado. Uma experiência sem igual, tanto que Pedro sugere armar tendas para continuar ali. O Senhor glorioso, porém, deverá antes entregar a própria vida, passando pelo sofrimento e pela morte. Pois o Senhor da glória é o servo sofredor que entrega a vida por amor.

    Para os três discípulos e para nós, permanecem duas ordens. A primeira, vinda do Pai, consiste em ouvir o Filho amado. Ouvir é a atitude fundamental dos discípulos. Ouvir Jesus é entender o que disse e fez, para que seu ensinamento esteja vivo em nossa vida e assim, de algum modo, possamos continuar hoje a mesma missão que o Pai lhe confiou. A outra ordem vem do próprio Jesus, que, após tocar os discípulos, lhes diz que se levantem e não tenham medo de enfrentar os desafios da realidade.
    Nesta caminhada de preparação para a Páscoa, o Senhor continua a se revelar a nós. Ele se manifesta de tantos modos, reanima nossa fé, alimenta nossa esperança, faz-nos vencer a tristeza e fortalece nossa missão de seguidores. É preciso, porém, voltar sempre à realidade, às tantas realidades de sofrimento e dor que precisam ser transfiguradas. Afinal, o que é a glória divina, senão o ser humano vivendo plenamente em Cristo.

    O foco da Quaresma sempre foi e continuará sendo a nossa conversão ao Senhor e ao que Ele quer de nossa vida e do mundo. Nossa conversão pessoal e institucional, porém, deve sempre se concretizar, ser visível.

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  4. Acreditar na transformação e passagem de nosso momento para presença de Cristo, é a transfiguração para nossa real aproximação.

    O despertar e o partilhar de nossa vivência, é alcançar um caminho de plena vida.

    Acreditar que o caminho de transformação, se faz necessário, aceitar e sentir a proximidade com a verdade, pode ser a experiência de vida mais esperada. O fortalecimento em Cristo e a certeza de nosso merecimento deste caminho, deve ser aceito e trilhado de forma prudente e confiante.

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    • Um bom pensamento Gabriel.. eu sou o que gosta de pensar além e colocar mais questões… E SE a Transfiguração, for a própria revelação do plano de Deus, a própria presença divina em um momento de encontro e transformação de vida, assumir nosso pleno papel?

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  5. “pelo amor aos inimigos o ser humano é divinizado (transformado, transfigurado) de maneira que participa da Perfeição do Pai que é Perfeito (porque ama a todos)” Eis nosso severo desafio!
    Fazem 15 dias que a pergunta não se cala: QUEM EU VERDADEIRAMENTE SOU?
    Só a partir do conhecimento sobre a criatura que sou consigo dar passos para conversão. É muito dura a realidade de miséria que somos diante dos acontecimentos da vida! Transfiguração palavra que pulsa no coração!

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      • Olá Edjalma,
        Sim, essa parte da resposta é que já nos apavora…então? Preciso me deixar desconstruir para ser reconstruída em Cristo. É uma luta diária, enfrentamento. Nas coisas corriqueiras vejo os sinais da minha pequenez… Da uma esmola ao primeiro pedinte e escute oque sente seu interior…julgamentos e julgamentos…ora da a esmola é segue a vida! Ufa! Hora mudo…
        Saudação

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  6. Com efeito, não acreditar na possibilidade de uma tal transfiguração ainda em vida me parece um grande pecado contra a santa esperança. Se a morte é a última purificação, a derradeira paga pelo pecado que acompanha o nosso “corpo de morte” desde Adão, castigo da espécie do qual ninguém escapa, ela é também aquilo que nos limita, que nos define, e que completa o significado de tudo o que fizemos em vida. Na medida em que nos aproximamos mais dessa última significação da morte, através da caridade, e nos afastamos da primeira, pelo ódio ao pecado, a morte se nos apresenta mais e mais claramente como uma amorosa ratificação de nossa existência finita, e menos e menos como um castigo. O desejo da morte na primeira significação motiva o suicida, o desejo da morte na segunda define o santo.
    Mais ainda, se aceitamos que somos uma mesma alma antes e depois da morte, há que se aceitar que somos imortais desde já; e sendo o mundo finito extensão natural e não apêndice extravagante do infinito, podemos desde já receber qualquer graça que ao Grande Rei aprouver nos dar.
    Viver como se já estivesse no Céu, é o que essa passagem me sugere. Virtude rara e seráfica da qual encontro um exemplo perfeito na vida de São Francisco de Assis.

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    • Olá Celso…

      Um trecho de sua belíssima exposição me chamou atenção, vou transcrever aqui:
      Na medida em que nos aproximamos mais dessa última significação da morte, através da caridade, e nos afastamos da primeira, pelo ódio ao pecado, a morte se nos apresenta mais e mais claramente como uma amorosa ratificação de nossa existência finita, e menos e menos como um castigo. O desejo da morte na primeira significação motiva o suicida, o desejo da morte na segunda define o santo.

      Em breves palavras, como essa distância, quase extremos de pontos, nos revelam a magnitude de viver, para alguns significado de busca, outros a experiência de vivência plena. A palavra castigo me intriga, mas é pontual, o saber que temos a provação, nossa dependência em libertação.

      Gratidão pela partilha.

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      • Olá, Edjalma,
        Pegaste o ponto! É realmente uma tensão, dois pontos entre os quais se desenrola nossa vida, de pecadores que buscam a santidade.

        Uma frutuosa Páscoa para o senhor, abraço!

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