Este é o trabalho do Monge: desejar e rezar para apressar a vinda do Reino de Deus

Homilia de D. Bernardo Bonowitz para a festa da Apresentação do Senhor no Templo

A espera de Simeão e Ana no templo não pode ser comparada à espera passiva e entediada de dois passageiros numa rodoviária, aguardando a hora para embarcar no ônibus. Nem seria suficiente pensar em sua espera como a espera do administrador na parábola de Jesus que se mantém em prontidão a noite inteira pela volta do mestre de uma festa de casamento.

A espera de Simeão e Ana é oração, oração contínua, e sua meta não é meramente a de manter aqueles que rezam na presença de Deus. É de trazer Deus à presença deles. A oração de Simeão e Ana é invocação; é um chamado para Deus para que venha o Messias – e venha logo. Simeão e Ana acreditam plenamente no poder da oração. Eles não rezam para tranquilizar a própria alma, mas para fazer algo acontecer, para fazer Deus chegar ao seu povo com a sua salvação, para introduzir o tempo messiânico.

É por isso que rezam precisamente no Templo, lembrados da promessa conservada no livro do profeta Malaquias: “E chegará ao seu templo o Senhor que vós procurais, o mensageiro da Aliança que estáveis desejando. Eis que ele chega – diz o Senhor dos exércitos.” (Ml 3,1). Simeão e Ana querem apressar a realização desta promessa pela pureza e pela intensidade de sua oração – e de seus jejuns, de suas vigílias e de sua castidade. Por meio de tudo isso, eles querem comunicar ao Senhor que a situação é urgente. Eles clamam a Ele para convencê-lo de que o momento certo para a chegada do Seu reino é agora.

Assim, os profetas Simeão e Ana são os ancestrais espirituais dos monges. Por sua oração e sua ascese, eles querem exercer pressão sobre o Senhor para que Ele traga o eschaton, os novos céus e a nova terra – o futuro absoluto.  

Festa da Apresentação do Senhor: bênção das velas. Abadia de New Mellaray.

Os monges não desprezam o mundo presente, mas eles percebem todas as suas feridas, suas falsidades e suas injustiças. Além disso, sabem que a forma deste mundo é transitória, que a Criação ainda não assumiu a sua forma final, uma forma que transcende à do mundo atual de tal maneira que a criação renovada merecerá ser chamada de “Nova Criação”.  

É por isto que os monges já deixaram o mundo, não mais vivem no mundo. Vivem num mundo intermediário entre o mundo presente e o mundo vindouro, entre a velha criação e a nova. Já passaram pelo controle; seus passaportes já foram carimbados. Já aguardam fora do país; no mesmo aeroporto, mas em território internacional. De longe eles vislumbram a verdadeira pátria, a Jerusalém do alto, e a saúdam. São estrangeiros e peregrinos nesta terra, como a Carta aos Hebreus afirma com tanta beleza e profundidade.

Isto não significa que as outras pessoas se tornaram indiferentes para eles. Ao contrário. Se os monges rezam com tanta insistência, é porque eles sabem, além de toda dúvida, que o Reino de Deus é o verdadeiro lar de todo ser humano, que aqui ninguém “tem cidade permanente, mas estamos todos à procura da que está a vir.” (Hb 13,14). A urgência e a intensidade de sua oração constituem um apelo em favor dos pobres, dos doentes, dos famintos, dos perseguidos, dos encarcerados. Os contemplativos não desejam a vinda do Reino como um condomínio fechado dentro do qual só eles podem entrar. Eles desejam a vinda do Reino, que é chamado Sião, que é “mãe de todos nós” – mãe de todo ser humano que vem a este mundo.

E, sobretudo, a oração constante dos monges, dos Simeões e Anas de nossa geração, visa a suprema glorificação de Deus. No mundo tal como está, o Nome de Deus não é santificado como merece ser, a vontade d’Ele não é feita na terra assim como ela é no céu. Esta santificação, esta glorificação, este cumprimento da vontade divina não pertencem, em sua plenitude, a este mundo, mas só ao mundo que há de vir. São as coordenadas do mundo que há de vir.

São Bernardo, no seu Comentário sobre o Cântico dos Cânticos, diz aos seus monges que eles devem desejar a segunda vinda de Cristo com a mesma intensidade e integridade com as quais os patriarcas e os profetas desejavam a primeira. Este é o trabalho do monge: desejar e rezar. A vocação contemplativa então pode ser resumida em três palavras: Vinde, Senhor Jesus!

D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo.

12 comentários sobre “Este é o trabalho do Monge: desejar e rezar para apressar a vinda do Reino de Deus

  1. Muitas pessoas, mesmo que cristãos praticantes, não conhecem a vida monástica. Como podemos, enquanto leigos, trazer a espiritualidade monástica para a nossa comunidade paroquial e familiar e, assim como Ana e Simeão, viver não passivamente mas uma sim uma espera em prontidão de quem anseia pela vinda de Cristo?

    Curtido por 2 pessoas

    • O reconhecimento da importância da vida monástica varia de época para época, dependendo do grau de intensidade religiosa e espiritual da Igreja e da sociedade. Contudo, o Magistério da Igreja sempre considerou a vida contemplativa o “coração da Igreja”. Pois a espiritualidade monástica é a espiritualidade Cristã em sua essência, em sua raiz.
      Por exemplo, a vocação monástica é essencialmente a vocação batismal: o monge deseja morrer para o homem velho, para renascer como Homem Novo, em Cristo; ou seja, alguém que não vive mais para si mesmo, mas para Aquele que por ele morreu e ressuscitou.
      A vida monástica é essencialmente uma vida de conversão: o mais importante voto monástico segundo a Regra de São Bento é o voto de “Conversatio morum” (conversão dos costumes). Esta é precisamente a espinha dorsal da pregação do Evangelho: a conversão.
      A vida monástica é uma vida de oração, serviço, e fidelidade à Nova e Eterna Aliança que Deus selou com Seu povo.
      Por fim, a vida monástica é uma vida inteiramente orientada para a união com Deus. Ainda que essa perspectiva (da união com Deus) esteja, infelizmente, um tanto esquecida no Cristianismo ocidental moderno (pois não foi esquecida no Cristianismo Oriental), ela é a orientação fundamental da fé Cristã segundo o Novo Testamento: “Para serdes participantes da natureza divina” (2Pd 1, 4).
      Em suma: a vida monástica é a vida Cristã em sua essência.

      Mas “como trazer a espiritualidade monástica para a comunidade paroquial e familiar”? A primeira resposta seria: Conhecendo-a!
      Pois não se pode amar o que não se conhece…

      Curtido por 1 pessoa

      • Sim.
        Sugerimos o livro “Buscando Verdadeiramente a Deus”, de D. Bernardo Bonowitz., que é uma excelente introdução às principais práticas espirituais da tradição monástica (silêncio, oração, lectio divina, trabalho manual), e sua relevância e aplicação para o mundo de hoje.

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  2. Pode parecer bobo, mas na minha ignorância fiquei me perguntando: o que é uma apresentação no templo na cultura judaica? Seria como o batismo cristão? Por que Jesus precisava ser apresentado no templo, sendo que ele é o Cristo? Também Nossa Senhora sendo puríssima, por que ela precisaria ser purificada?

    Muito obrigado!

    Curtido por 1 pessoa

    • A Apresentação do primogênito no Templo é uma prescrição da Lei de Moisés, que tem sua origem na noite da Páscoa judaica, com a última praga do Egito, na qual é tirada a vida dos primogênitos de todas as casas do Egito pelo Anjo Exterminador (exceto as casas que estavam assinaladas com o sangue do Cordeiro Pascal – isto é, as casas dos hebreus). Por isso a Lei de Moisés prescrevia que “todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor” (Ex 13,2).
      Essa era a prescrição da Lei, a qual era estritamente cumprida por todos os judeus piedosos, dentre eles José, Maria e o próprio Jesus – pois Jesus mesmo disse que não veio para abolir a Lei, mas para levá-la à plenitude.
      Essa é o “pano de fundo” histórico do episódio da Sagrada Família.
      Mas a parte realmente interessante é a leitura Cristã do acontecimento, que vê aqui o cumprimento da profecia de Malaquias segundo a qual o Messias (em grego “Christós”), o Ungido, entrará no Templo de Deus e nele realizará uma grande renovação e purificação, inaugurando os “tempos messiânicos”.
      Não por acaso esta é a primeira leitura da Missa da festa: Malaquias 3, 1-4 (“O Senhor, a quem buscais, virá ao seu Templo”).
      Esta é precisamente a passagem sobre a qual D. Bernardo construiu sua homilia.

      Vale à pena mencionar também que a festa da Apresentação do Senhor é considerada a festa dos Consagrados, à imagem de Jesus que foi entregue por José e Maria para ser consagrado a Deus no Templo.

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  3. “Eles não rezam para acalmar a própria alma, mas para fazer algo acontecer”… Que ensinamento gigantesco para vida espiritual, que me levou a fazer um questionamento: Até que ponto eu rezo somente para mim?, e para vinda do senhor realizar uma obra grandiosa?.

    Curtido por 2 pessoas

    • Devemos, sim, rezar por nossas necessidades e pelas necessidades daqueles que amamos. A própria oração do Senhor nos ensina: “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje”. Mas o Senhor deseja dar-nos muito mais; Ele deseja dar-nos o Reino, Ele deseja que o Seu Reino se estabeleça plenamente, e que todos os homens sejam redimidos e salvos.
      “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todo o resto vos será dado em acréscimo”.
      Em nossa oração e em nosso empenho no crescimento em santidade e graça não devemos buscar frutos somente para nós mesmos como indivíduos, mas devemos visar a preparação para a vinda do Reino e a renovação espiritual do mundo.
      A súplica “Vinde, Senhor Jesus!” era extremamente presente na oração dos primeiros Cristãos, e a vemos em várias passagens do Novo Testamento.
      Essa súplica se mantém viva de modo particularmente intenso na vida monástica.
      Por isso São Bernardo diz aos seus monges que eles devem desejar a segunda vinda de Cristo com a mesma intensidade que os profetas e os juntos do Antigo Israel desejavam a sua primeira vinda.

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  4. Estive algumas vezes no Mosteiro Trapista, e sinto em meu coração que na vida monástica há muito AMOR ou não suportariam a privação das necessidades humanas (físicas). Agradeço de todo meu coração a doação dos monges à Deus, fonte de Amor Eterno. Que o Senhor os fortaleça cada vez mais e a Virgem Mãe os cubra com seu manto protetor. Muito obrigada.

    Fraternalmente,
    Lúcia de Fátima

    Curtido por 1 pessoa

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