Trapa feminina de Rio Negrinho: "Verdadeiramente, o Senhor está neste lugar"

D. Bernardo Bonowitz

Homilia para a celebração dos dez anos do início da fundação da Trapa feminina de Nossa Senhora de Boa Vista

10 de janeiro de 2010 — 10 de janeiro de 2020
Rio Negrinho, SC

Estamos celebrando, dentro da oitava da Epifania, o décimo aniversário da chegada das monjas trapistas no Brasil. Epifania significa “manifestação” – em particular, uma manifestação do divino. Tradicionalmente, a Igreja celebra três epifanias dentro da solenidade da Epifania: a manifestação do Verbo Encarnado aos reis magos em Belém, a manifestação do Cristo como filho amado pelo Eterno Pai nas margens do rio Jordão na hora do seu batismo, e sua auto-manifestação ao mundo por meio do seu primeiro “sinal”: a transformação de água em vinho nas Bodas de Caná. A palavra “epifania” tem a mesma raiz da palavra grega para luz, “phós”.

Uma epifania é um raiar da luz, um resplandecer da luz.  Por sua natureza, epifanias são glamorosas e extraordinárias (e são um dom de Deus; não é possível alcançá-la por meio do esforço próprio). O divino transborda para dentro de nosso mundo humano.

E aqui estão as nossas Irmãs, mergulhadas numa existência que, segundo as Constituições de nossa Ordem, é “ordinária, escondida e laboriosa” (Constituições OCSO 3.5). Todo dia nos aplicamos ao mesmíssimo ciclo, desde vigílias até completas; todo dia dentro do claustro, realizando tarefas e cumprindo compromissos e perseverando na fidelidade aos votos, sem nenhum repórter para testemunhar ou aplaudir os seus esforços; todo dia cheio de desafios, exteriores e interiores, pessoais e interpessoais. O único lugar no mundo onde a vida de uma monja trapista é extraordinária e glamorosa é na cabeça de uma candidata! Para uma vocacionada, nossa vida trapista pode parecer tão glamorosa e mágica quanto os reis magos, tão palpavelmente cheia da experiência de ser uma filha amada de Deus como se o Espírito Santo repousasse no ombro de toda monja, tão inebriante quanto as talhas repletas do vinho bom do casamento em Galiléia. Por quanto tempo poderá durar esta atitude?

Ainda assim, as Irmãs, vivendo exatamente desta forma simples e oculta, são as protagonistas de uma epifania – e, de fato, de uma epifania contínua.

Como isso é possível?

Pensemos nos israelitas no deserto, que sempre montavam acampamento onde vinha habitar a coluna de fogo e a coluna de nuvem: se a coluna (símbolo da Shekiná, da divina presença) permanecia no mesmo lugar, os israelitas lá se mantinham; se a coluna se movia, os israelitas levantavam acampamento e a seguiam. E isso dia após dia, ano após ano. Sua regra de vida era invariável: “Nós seguimos a coluna de fogo; nós convivemos com a coluna”.  

Creio que é possível – e creio que esta é uma intuição central da vida monástica – que uma comunidade pode viver de tal modo (ordinário, escondido e laborioso) que a presença divina se sinta como que convidada – ou até intimada – a vir fazer sua morada no meio desta comunidade. O ciclo diário de oração, de trabalho, de meditação da Palavra divina, de vida fraterna, de renúncia, de auto-transcendência, de perseverança: este ciclo é imensamente atraente para a presença divina, é quase irresistível para a divina presença. É um hotel de cinco estrelas para a divina presença. E isto porque uma tal vida “ordinária, escondida e laboriosa” é a tradução mais perfeita, em termos humanos, da vida que o próprio Deus vive. Assim vivia Jesus de Nazaré, Deus feito carne. Por isto ele se sentia tão “em casa” com Maria e José: aquele casal vivia divinamente, isto é: vivia a vida divina traduzida em termos humanos: no ordinário, no escondido, no laborioso do cotidiano.  

Sabemos que, muitas vezes, esta presença divina que enche o mosteiro é mais facilmente experimentada pelos hóspedes e visitantes do que pelos próprios monges. Nós não somos mais, hóspedes e visitantes, mas concidadãos. Mas a presença divina está lá – isto é, ela está aqui. Recentemente, um jovem casal de cristãos Ortodoxos que vive na Romênia veio visitar nosso mosteiro, e partilhou comigo: “Para nós, é a primeira vez no Ocidente que experimentamos o mesmo ambiente de oração e adoração que conhecemos em nosso país”. Como pode ser isto possível? Simples: uma comunidade que verdadeiramente vive a vida monástica é um convite perpétuo a Deus, um convite que Ele não consegue recusar.      

Este é o dom que uma comunidade monástica faz para a Igreja e para o mundo: ela estabelece um ambiente propício para Deus, e ao mesmo tempo aberto a todos os homens de boa vontade. “Verdadeiramente, o Senhor está neste lugar”. ⊕ 

D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo.


Leia também:

“Eis-me aqui, Senhor”: Elevação a Priorado da Trapa feminina de Rio Negrinho, SC

Sobre o tema da comunidade monástica como habitação de Deus: “Põe-te em pé, Jerusalém, porque a tua luz é chegada”

12 comentários sobre “Trapa feminina de Rio Negrinho: "Verdadeiramente, o Senhor está neste lugar"

  1. Tive a honra de participar da celebração da Santa missa e após conversar com as monjas. São extremamente centradas, dedicadas e muito atenciosas!
    Assim como os monges de nossa cidade.

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  2. Louvamos e agradecemos a Deus por mais esta homilia de Dom Bernardo! Que o Espírito Santo o fecunde de muitos dons, sobretudo o da perseverança! Quando falamos, lemos ou estudamos algo sobre a vida monástica, sempre temos em vista que ela é uma “epifania, um raiar de luz, um resplandecer da luz”. É a bela proposta convidativa que Deus faz para alguns homens e mulheres para serem “um transbordar divino no mundo humano”, tão cheio do caos.
    Não se trata de uma proposta extraordinária nem espetacular, mas de um caminho de santidade percorrido na vida comunitária e visto na vida de cada irmão e irmã. A grande meta da vida cristã é a busca por Cristo. Quem o encontra, “volta por outro lado”, como nos ensinam os pastores de Belém. Encontrar o Cristo escondido! Eis o nosso gozo mais existencial! Mas como encontrá-Lo se Ele se encontra escondido? Como achá-lo? Aqui, fazem as vezes as palavras de são Mateus: “Batei e vos será aberto; procurai e encontrareis; buscai e achareis”. Só o encontramos pela via da fé, que se dá na obediência e na docilidade. O profeta Samuel diz que: “a obediência e a docilidade agradam mais a Deus que os sacrifícios”. Que o Senhor nós cumule de muitos dons para perseverarmos no nosso caminho de busca por Cristo em sua Igreja!

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  3. O Coro dos Monges

    Quem são esses que habitam na montanha,
    Louvando sete vezes o Deus Trino,
    Cigarras ou formigas ou colméias,
    Nutrindo de orações o próprio céu?

    Quem são esses de pé antes do dia,
    Que à própria eternidade se antecipam,
    A viverem na terra como os anjos,
    Que não tiram de Deus os seus olhares?

    Deixaram pai e mãe, mulher e filhos,
    Os campos a lavrar, messes de sonhos,
    E à voz de Deus inclinam seus ouvidos.

    Irradiam a paz dos que não lutam
    Pelas posses e glórias deste mundo,
    Pois, escolhendo a Deus, possuem tudo.

    (BARBOSA, Dom Marcos. O coro dos Monges. In: SANTOS, Diva Ruas. Antologia
    da Poesia Mineira. Belo Horizonte: Cuatiara, 1992, p.140).

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  4. Congratulações às monjas trapistinas que estando no Brasil, há 10 anos escondem-se do mundo por meio de uma vida simples, comum, voltada ao trabalho e a oração, transfiguram-se para serem phós de um rio caudaloso e cheio de vida que deságua nos braços de Jesus Cristo Nosso Senhor.

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  5. “Verdadeiramente, o Senhor está nesse lugar!”
    Bendito seja Deus pela vocação destas queridas irmãs! Que possam elas ser ao mundo cada vez mais testemunhas vivas do amor de Deus e de uma vida cristã autêntica!

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  6. Sou muito feliz por fazer parte desta história ao recebe-las no meio de tantas malas e muitos dias e horas de viagem da comunidade chegando ao Brasil. Muito mas muito obrigada minhas Irmãs por escolherem o Brasil para sua fundação. Pax

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  7. Não é a “Jerusalém celeste”, sabemos. Mas também não é a “Jerusalém terrena”, a Trapa já é algo diferente. Que Deus continue abençoando e santificando as irmãs de Boa Vista e toda a família cisteciense para que perseverem, sempre iluminadas à Cruz de Cristo.

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    • Sim. Tanto o mosteiro de Boa Vista (feminino) como o mosteiro de Novo Mundo (masculino) pertencem à Ordem Cisterciense da Estrita Observância (“Trapistas”). Constituindo uma única Ordem, estão presentes ambos os ramos, o masculino e o feminino.

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  8. No silêncio, no escondido, na simplicidade…Sim nesse clima tão propício acontece todos os dias o Natal, a grande festa! Entre o silencioso olhar escutamos o festejar glorioso da alegria escondida por doar a vida a Jesus!
    Ao se aproximar da chegada ao mosteiro da Boa Vista o ar muda a mata exala seu cheiro agradável avisando que um pedaço do céu está próximo, os pássaros entoam um canto misterioso por fim o céu sempre faz seu espetáculo para descortinar a visão que enche os olhos da Boa Vista !
    Sempre vamos embora com a vontade de ficar!

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