“Eu irei onde ele está, mas ele não poderá voltar para mim”

Missa do Galo (Noite de Natal, 2019)
Homilia de D. Bernardo Bonowitz

Os nossos padres cistercienses viviam imersos em duas realidades: a pessoa de Jesus e a palavra bíblica. Estes eram os dois assuntos que continuamente ocupavam suas mentes e seus corações. Por esta razão brotavam em seus escritos conexões inesperadas entre um texto bíblico e alguma nova compreensão do mistério de Jesus.

Recentemente experimentei algo assim, durante a Lectio Divina. Eu meditava o evangelho da visitação de Maria a Isabel, quando surgiram estas palavras na tela da minha mente: “Eu irei onde ele está, mas ele não poderá voltar para mim”. Custei a identificar a proveniência deste versículo. São as palavras do rei Davi aos seus ministros no segundo livro de Samuel, quando ele toma conhecimento da morte de seu filho nascido do seu adultério com Betsabeía, a esposa de um de seus generais. Os ministros estão perplexos porque o rei não entra em luto ao saber do falecimento da criança. Com resignação e fatalismo, Davi explica: “Agora que o menino está morto, por que hei de jejuar? Acaso poderei fazê-lo voltar? Eu irei, sim, onde ele está, mas ele não poderá voltar até mim”.     

E, naquele momento, compreendi que nestas poucas palavras temos uma apresentação concisa da realidade da Encarnação. Nós, cada um de nós, e todos juntos, somos aquele menino nascido do adultério. Fomos capazes de afastar-nos de Deus, e de fato, nos afastamos – pelo pecado, pela mentalidade carnal, pelo esquecimento da realidade espiritual, pelo nosso tão arraigado egocentrismo, pela melancolia e tristeza – mas não somos capazes de voltar a Ele. Já fizeram a tentativa? Certamente todos nós monges tentamos e continuamos tentando. Milhares de vezes. Tentamos voltar àquele Deus do qual nos tínhamos afastado. E qual o resultado? Ficamos cada vez mais perdidos no mato, andamos mil vezes no mesmo círculo; repetimos a história do povo de Israel no deserto, que passou quarenta anos tentando sem sucesso a realizar uma travessia que devia durar algumas semanas – e não chegamos ao destino. Aquela centésima ovelha é perfeitamente capaz a perder-se no deserto, enquanto as outras noventa e nove ficam quietamente deitadas no cume do monte. Mas ela não tem condições a fazer a viagem de regresso. Não tem a inteligência, não tem a coesão da vontade. Talvez nem saiba que está perdida, como muitas vezes não sabemos que estamos perdidos. Mas está perdida, e não conhece o caminho que leva ao pastor. Então o pastor, movido pela compaixão, diz, “Pobre e fraca ovelhinha. Eu irei até onde ela está, porque ela não pode voltar para mim.”

Hoje, nesta noite santa, o pastor transforma esta resolução em ação. Como diz o Credo, “Descendit de coelis… et homo factus est.” Ele “desceu do céu, e se fez homem.” Natal significa Deus estar onde nós estamos, Deus estar conosco no mato, Deus estar longe dos céus. Será que isto tem alguma utilidade? O homem já estava perdido, e agora Deus está perdido com ele… Se um perdido guia outro perdido, não cairão os dois num buraco? Mas o Deus que desceu do céu não está perdido, não é cego. Ele conhece o caminho de volta; ele sabe ensinar o caminho de volta; ele é o caminho de volta. Melhor: ele sabe tomar cada um de nós sobre os seus sagrados ombros e levar-nos para o redil. Nasce num estábulo para levar-nos de volta ao redil.

Muitos dizem que o peso que Jesus carregava nas costas por toda a sua vida e especialmente na cruz era o peso de nossos pecados. De modo algum! O peso que ele carregava éramos nós mesmos. Foi para isto que ele veio, para carregar-nos de volta para a casa do Pai, que é a nossa verdadeira casa, a nossa verdadeira cidade, a nossa pátria. O céu se chama “pátria”, porque é lá que mora o nosso pai. Jesus veio, para tomar todos nós, seus irmãos menores, sobre si, e nos conduzir em segurança para o seu pai e o nosso pai. Esta é a sua missão. Ele não gostava quando pessoas descreviam este transporte como um peso, como algo pesado. Como poderia ser pesado carregar de volta para Deus seus amados irmãos que se tinham extraviado? Ele se exultava a fazer isto, fazer o transporte de resgate. E se alguém tentava mostrar-lhe compaixão e dizer, “Pobre Jesus! Carregado de infinitas toneladas de uma humanidade suja e pecadora, quando poderia ter permanecido tão leve como um pássaro!”, ele ficava zangado e dizia: “De forma alguma. O meu jugo é leve, e o meu fardo é suave. Levar de volta os meus irmãos para meu pai é a viagem da minha vida, é a viagem dos meus sonhos”.

Assim como o português, o inglês tem suas gírias maravilhosas. Uma delas é “take a piggyback ride”: “andar nas costas do porquinho” [Em português diríamos: “Andar de cavalinho”]. As crianças adoram fazer isto com seus pais. O pai se agacha, e o menino sobe nas costas do pai, e lá vão eles voando e rindo, e a criança gritando, “Piggy-back, piggyback. Go, piggyback!” [“Corre, cavalinho!”] . Para o pai também é um momento de êxtase, poder carregar seus filhos nas costas. Jesus perdoe a minha familiaridade, mas ele veio para carregar-nos de “piggyback” para a casa do pai. E a nossa parte no mistério de Natal é simplesmente deixar-nos ser carregados: pelo amor de Jesus, pelo exemplo de Jesus, pelas palavras de Jesus, pela sabedoria de Jesus. Não podíamos voltar a ele e assim ele veio a nós. Mas ele veio a nós para levar-nos consigo. Como ele reza no evangelho de São João, exprimindo o âmago do seu desejo: “Pai, quero que estejam comigo aqueles que me deste”. ⊕

D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo.

15 comentários sobre ““Eu irei onde ele está, mas ele não poderá voltar para mim”

  1. Irmãos, em Cristo, Pax!
    Cada palavra de Dom Bernardo, inspirada pelo Espírito, é uma faca bem amolada a rasgar nossos corações! A Palavra, que é Cristo, rasga nosso peito com um amor incalculável! Certamente, nós “estávamos perdidos” como nos ensina o apóstolo São Paulo. Perdidos de Deus para nos perdermos Nele, somente Nele. Como é reconfortante para a alma saber que nosso Deus vem até nós e nos carrega não nos ombros mas nas costas! Como nossa alma pode descansar segura em Deus que se dignou nos reencontrar.
    Nossa alegria é saber que por mais “no mato” que, às vezes, possamos estar Cristo, como Bom Pastor, sempre dá um jeito de nos arrancar do meio dos espinhos, da falta de água e do cansaço próprios dos que se encontram longe de Deus.
    Portanto, com nossos irmãos monges, podemos dizer: Ele se fez carne e habitou no meio de nós! Venite Adoremus!

    Curtido por 5 pessoas

  2. Irmão, obrigado por compartilhar a homilia de Dom Bernardo. A abordagem foi certeira: “Ele conhece o caminho de volta; ele sabe ensinar o caminho de volta; ele é o caminho de volta.”
    Feliz Natal do Senhor!

    Curtido por 3 pessoas

  3. Ir. Guilherme,

    Boa-noite! Feliz e Santo Natal. Por favor, reze por mim e por minha família. Amanhã retorno de viagem de férias e em uma pequena trilha tive um acidente e quebrei tíbia e fíbia. Amanhã mesmo farei uma cirurgia.

    Abraço fraterno.
    Roberto.

    Prof. Roberto Belmonte Júnior Enviado do meu iPhone

    Curtido por 2 pessoas

  4. O Bom Pastor conhece suas ovelhas,Ele carrega com carinho cada uma para o seu redil,Ele cura,salva,liberta,unge com óleos suas feridas que os espinhos da vida,nela fizeram……Ele veio para salvar,e vocês nos ajudam a conhece- Lo cada dia melhor.Obrigada pelas suas lições Jesus os proteja sempre…..

    Curtido por 4 pessoas

  5. Homilia q revela o Amor Misericordioso do Pai, o amor fraterno de Jesus por seus irmãos menores, nos! Deus seja louvado por tão rica inspiração : Ele vem até nós pra nós levar ao caminho de volta, já que nos perdemos . Ele mesmo é o Caminho e ao mesmo tempo o Pastor q nos carrega alegremente nas costas.

    Curtido por 3 pessoas

  6. Que maravilha de homilia!
    Com a forma peculiar de Dom Bernardo, nos introduz num mistério de amor que nos transcende!
    Bendito seja Deus!
    Muito obrigada Ir Guilherme, por compartilhar conosco pérola tão cara!

    Curtido por 3 pessoas

  7. “Talvez nem saiba que está perdida, como muitas vezes não sabemos que estamos perdidos”.
    Vivemos com algumas certezas, tão erradas e na ilusão de que somos completos.
    Sensacional homilia, como todas as outras!

    Curtido por 2 pessoas

  8. Galo, cavalinho, porquinho, ovelha, muito legal. É preciso ter muita fé para que o pastor encontre a ovelha antes que a pobre vire churrasco e um belo agasalho, já que no meio do mato, pode ter muito lobo mau, e muitos ainda disfarçados de criatura tão dócil. Mas se estamos vivendo nosso batismo, no mato ou sem mato seremos encontrados. Que o Menino Jesus manso e humilde de coração nos ajude em qualquer lugar apreendermos tão caras virtudes.
    Gratidão a Deus e a todos irmãos por este ano que fica. Que as graças de nosso Deus nos alcance também neste novo ano que chega.

    Curtido por 1 pessoa

  9. Que homilia iluminada!
    Quando ouvi o termo “Piggy-back”, pensei: “Que estranho!”. Mas pouco depois vi um padre usando uma estola com a estampa do ano santo da misericórdia percebi que era exatamente essa figura: o Pai misericordioso carregando seu filho nos ombros (http://bit.ly/2N59hq3). Nunca tinha parado para pensar nessa experiência de deixar-me ser carregado.
    Que, pelo mistério da Encarnação, o Senhor nos ilumine para que tenhamos o coração aberto e amolecido para deixar-nos conduzir por Ele, que é o Caminha, a Verdade e a Vida!
    Grande abraço!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para Maria Lúcia Anselmo Setti Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s