“Do meu cálice beberás”: Votos Simples de Irmão Guerrico

Aqui na terra, o trono de Cristo é a sua Santa Cruz. O monge que, mediante os votos monásticos, deseja aproximar-se desse trono, deve responder à pergunta do Senhor: “Podeis beber do meu cálice?”. Que cálice é esse?

14 de setembro, festa da exaltação da Santa Cruz

Homilia de D. Bernardo Bonowitz
Abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo

O monge que pede para fazer seus votos na festa da Exaltação da Cruz pede um trono à direita ou à esquerda do Senhor, porque aqui na terra, a cruz é seu trono. A mãe dos filhos de Zebedeu, a Igreja, representada pelo Capítulo Conventual, apoiou seu pedido e o Senhor deu seu consentimento. Então, Irmão Guerrico, “Elevai-vos acima dos céus”; tome seu lugar ao lado de Cristo.

Sendo este trono posto num lugar de grande altitude, onde o ar é rarefeito e o nível de oxigênio menor, para manter-se lá sem cambalear você vai precisar beber um cálice inebriante (como diz o Salmo 22[23]). Durante estes anos de seu noviciado, o Senhor já o questionou acerca de sua disposição e sua capacidade de beber tal cálice; e, por sua presença no santuário esta manhã, podemos entender que sua resposta foi “Sim, posso”. E Jesus, “Do meu cálice beberás”.

Não é um cálice ruim ou desgostoso; você já conhece os seus ingredientes e já os provou, embora como noviço e não como professo. Deixe-me falar brevemente sobre eles.

O principal é a conversatio morum (conversão dos costumes).  Sobre aquilo a que ela se refere não há mistério: é simplesmente levar a vida de Jesus, seguir Jesus, imitar Jesus. Aqui sua grande ajuda serão os evangelhos. Neles você encontrará o que Jesus pensava, falava, sentia e fazia – em si mesmo; e agora Ele quer fazer em você, com seu consentimento e sua colaboração. O evangelho é o guia infalível para a vivência da conversatio morum. Às perguntas, “Como devo proceder?”, “Qual deve ser a minha atitude nesta situação?”, encontrará todas as respostas no evangelho, e cada vez mais, quanto maior for sua familiaridade com ele por meio da Lectio Divina e da meditação da palavra de Deus ao longo do dia. Por Cristo, com Cristo, em Cristo – eis o lema do monge que quer ser fiel ao voto da conversatio monástica.

O segundo ingrediente é a santa obediência. Se você viver bem a conversatio, a obediência não lhe será difícil, porque a obediência nada mais é que uma orientação com autoridade no por em prática da conversatio. Em primeiro lugar, obediência à voz do Pai no céu – este é o voto da primeira pessoa da Santíssima Trindade. Jesus nos diz, “Eis o meu pai, o amado, em quem coloco todo o meu bem-querer. Escutai-o!” Escute-o, Irmão Guerrico, enquanto ele fala dentro de sua consciência, em tempos de oração pessoal e em outros momentos quando ele o pega de surpresa, por uma inspiração ou admoestação inesperada. Escute-o também em seus representantes no mosteiro: o abade, o mestre, o seu confessor. Para algumas pessoas, é difícil conjugar obediência e benevolência: Quem manda, estraga. Que esta não seja sua atitude, simplesmente porque não corresponde à verdade e também porque não é um bom augúrio acerca de um futuro no mosteiro.

O terceiro ingrediente é a estabilidade no mosteiro; este é o voto do Espírito Santo. O Espírito Santo é ele mesmo a estabilidade interior na montanha russa da vocação monástica. A vida sobe, desce, faz curvas, para de repente, retoma movimento com uma rapidez que às vezes dá tonturas, para não dizer ânsia de vômito. E lá está o Espírito numa boa, gostando do andamento da carruagem. Pense neste primeiro ano como uma temporada numa montanha russa, e por amor de Deus, não saia enquanto a máquina está em movimento. Isto pode ser espiritualmente muito perigoso! Que o Espírito Santo seja sua calma, sua tranqüilidade. Ele é aquelas barra no carrinho da montanha russa à qual você deve se agarrar. Ele é a paz no meio da tempestade. Não o solte!

Tal é seu cálice, que no fim das contas, não é amargo, mas doce. É nosso Pai São Bernardo que afirmava várias vezes em seus escritos que os lábios do Senhor que primeiro tocaram no cálice deixaram um doçura permanente para a gente saborear. Isto não é só poesia, Irmão. Ele passou fazendo o bem; seu fardo é leve, e seu jugo é suave.

E não se esqueça, Irmão Guerrico, que eu estarei rezando por você de uma maneira especial, porque hoje é o trigésimo terceiro aniversário dos meus votos solenes. Qual é o trono que você quer: o da esquerda ou o da direita? Eu lhe direi o que Abraão disse ao seu sobrinho Ló na hora de buscar pastagem para seus rebanhos. “Se fores para a esquerda, eu irei para a direita; se fores para a direita, eu irei para a esquerda”. A única coisa que importa é que cada um de nós permaneça firmemente sentado no seu trono, e que Jesus seja sempre o elo entre nós, entre todos nós. Amém ⊕ 


Leitura sugerida:

“BUSCANDO VERDADEIRAMENTE A DEUS”, de D. Bernardo Bonowitz. Ed. Mensageiro de Santo Antônio, 2013.

VIDA MONÁSTICA — Elementos básicos, do Pe. Augustine Roberts, OCSO. Ed. Lumen Christi, 2016 (2a. edição em português). Capítulo 1: “Entrar no Mosteiro”.

“Constituições e Estatutos da Ordem Cisterciense da Estrita Observância”. Capítulo 1, “A Vida Monástica Cisterciense”.

6 comentários sobre ““Do meu cálice beberás”: Votos Simples de Irmão Guerrico

  1. Belas palavas! Sobre elas tenho um “pequeno” questionamento. Quando estou em oração, quando sei que é a voz (vontade) de Deus, quando é minha própria vontade. Estou num processo de discernimento vocacional, qual já vivi anos atrás. Vejo que luto comigo mesmo num sentimento de negação que tem me aflingido. Pra ser sincero tenho me ausentado das atividades da igreja e até mesmo das missas, numa tentativa de fuga, ou na esperança de que este chamado a Vida consagrada não seja para mim.

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  2. O evangelho é o guia infalível para a vivência da conversatio morum. Às perguntas, “Como devo proceder?”, “Qual deve ser a minha atitude nesta situação?”, encontrará todas as respostas no evangelho, e cada vez mais, quanto maior for sua familiaridade com ele por meio da Lectio Divina e da meditação da palavra de Deus ao longo do dia. Por Cristo, com Cristo, em Cristo – eis o lema do monge que quer ser fiel ao voto da conversatio monástica.

    Orientação ao monge,mas que também pode ser muito bem dirigida ao simples leigo, que igualmente quer viver, já desde esta vida, em união com Cristo, para apenas continuá-la na eternidade. E que o Espírito Santo – que oração fortalecedora ! – seja sua calma, sua tranquilidade. Ele é aquela barra no carrinho da montanha russa à qual você deve se agarrar. Ele é a paz no meio da tempestade. Não o solte ! Deus meu, que bênção, que graça para mim, e certamente, para tantos outros, deparar com essas palavras neste momento de minha vida ! Sim, que assim seja, ao longo do meu dia de hoje e todos a seguir : Por Cristo, com Cristo, em Cristo !

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