A Vida de Santa Maria Egipcíaca

“A justificação do ímpio é obra maior do que a criação do céu e da terra”
Santo Agostinho

A “Vida de Santa Maria Egipcíaca”, uma das mais belas histórias de conversão que a tradição do deserto nos legou, foi agora traduzida e publicada pela Minha Biblioteca Católica.

Este relato, que tem sua origem no testemunho pessoal do monge Zózimo, será escrito por S. Sofrônio de Jerusalém (c. 560 – 638) e se difundirá no Oriente e no Ocidente Medieval, conduzindo uma multidão de almas à conversão e à vida monástica.

Em algumas Igrejas Bizantinas a festa de Santa Maria do Egito é celebrada no quinto domingo da Quaresma, por ser ela reconhecida como modelo de arrependimento e penitência.


Assim começa a história: em um certo mosteiro na Terra Santa, no remoto século quinto, os monges tinham o costume de, durante a Quaresma, partirem para o deserto e lá permanecerem em solidão, oração e penitência, até o Domingo de Ramos. Numa dessas incursões quaresmais deserto adentro, um monge de nome Zózimo, tendo atravessado o Jordão, avistou o que parecia ser uma figura humana, um tanto desfigurada, tendo uma longa cabeleira branca que lhe cobria o corpo e a pele castigada pelo sol, que ele tomou por um eremita mas que fugiu quando ele se aproximou. Tendo Zózimo saído ao seu encalço, aquele lhe perguntou: “Abba Zózimo, por que me persegue? Não posso virar e mostrar o meu rosto. Sou uma mulher, e estou nua; joga-me o teu manto para que eu possa cobrir o meu corpo, e então poderei pedir tua bênção”.

A misteriosa figura era aquela que será conhecida nos séculos vindouros como Santa Maria Egipcíaca.

Tendo então o monge Zózimo suplicado com insistência que ela dissesse quem era e como chegou a este deserto, ela põe-se a contar sua formidável história:

“Nasci no Egito. Na idade de 12 anos deixei a casa de meus pais. Saí sem o consentimento deles e me dirigi a Alexandria. Lá, perdi minha pureza e me entreguei à sensualidade irrestrita e insaciável. Vivi como prostituta pública por 17 anos, não em troca de dinheiro mas simplesmente para contentar minha volúpia. Para mim, a vida consistia na satisfação de meus desejos carnais. Um dia, vi uma multidão que seguia para Jerusalém para adorar a Santa Cruz do Senhor. Quis também navegar com eles. Como não tinha nem comida nem dinheiro, ofereci meu corpo como pagamento pela minha passagem”.

Certamente os marinheiros não recusaram uma oferta tão generosa, e a nossa futura santa embarcou no navio. Tendo chegado a Jerusalém, a assembléia se dirigiu ao destino da peregrinação, que era Igreja de São João Batista onde estão as relíquias do Santo Lenho. Era a festa da Exaltação da Santa Cruz.

Foi então que algo misterioso aconteceu: tendo chegado a hora da Santa Elevação, Maria tentou entrar na igreja com os peregrinos, mas uma força invisível a retinha. Por várias vezes ela tentou atravessar a soleira a porta, mas era repelida. Enquanto isso, ela via as outras pessoas entrarem sem dificuldade.

“Então entendi que tudo aquilo tinha como causa a enormidade dos meu pecados”.

Nesse momento, a graça do Senhor lhe tocou poderosamente o coração. Ela se retirou para o pátio exterior e colocou-se diante de um ícone da Mãe de Deus. Todo o seu corpo tremia. Em meio a lágrimas e batendo no peito, ela elevou os olhos para a Santíssima Mãe de Deus e suplicou:

“Ó Virgem Senhora, que destes à luz o Verbo Divino, sei que sou indigna de deitar os olhos sobre o vosso ícone. Com razão inspiro repugnância diante da vossa pureza, mas também sei que Deus tornou-se Homem para trazer os pecadores à conversão. Ajuda-me, ó Imaculada! Deixai que eu entre na igreja. Sede minha testemunha diante do vosso Filho, para que eu nunca mais profane o meu corpo novamente com a impureza da fornicação. Tão logo eu tenha a graça de estar diante da Cruz do Vosso Filho, renunciarei ao mundo e irei onde quer que vós me conduzais”.

Tendo derramado seu coração diante da Santíssima Virgem e lavado sua alma em lágrimas, Maria do Egito sentiu plena confiança no amor de Deus e de Sua Santa Mãe e, entrando na igreja (dessa vez sem nenhum obstáculo), desabou sobre o chão sagrado e, ainda em prantos, o beijou. 

Levantando-se, retornou ao lugar do ícone onde tinha feito o seu voto, dobrou os joelhos diante da Virgem e rezou:

“Ó Senhora, não rejeitastes a minha súplica. Glória a Deus que aceita o arrependimento dos pecadores. Agora é hora de eu cumprir os meus votos, tal como vós testemunhastes. Guia-me, Senhora, no caminho do arrependimento”.

Ela ouviu então uma voz do Alto:

“Maria, atravessa o Jordão e encontrarás glorioso repouso”

Maria obedeceu e, levando consigo apenas três pães, cruzou o Jordão e adentrou o grande deserto, para nunca mais voltar. Os três pãezinhos a alimentaram miraculosamente durante dezessete anos, durante os quais ela foi atormentada por tentações sem fim, e seu corpo foi cruelmente castigado pelas intempéries. Com o passar dos anos, suas roupas se desfizeram. Ao fim dos primeiros dezessete anos, que correspondem aos seus dezessete anos vividos em pecado, veio-lhe a consolação de Deus, e ela foi cumulada de dons espirituais extraordinários, testemunhados pelo monge Zózimo – o qual, vale mencionar, foi o primeiro e o único ser humano com quem a penitente se encontrou em 47 anos de deserto.

O relato segue cheio de ternura e simplicidade, e conduz o leitor a um final singelo e surpreendente – que evidentemente não vamos contar, para que o leitor descubra por sua própria leitura.  

Maria do Egito recebe a Sagrada Comunhão das mãos de Abba Zózimo, às portas de seu retorno para Deus

O que gostaríamos de sublinhar aqui é o poder infinito da graça de Deus e de Sua Santíssima Mãe, manifestado na conversão de Maria do Egito, um poder capaz de resgatar a alma mais perdida e indiferente ao caminho da salvação. Por isso, ao reconhecer a obra magnífica que Deus realizou naquela que um dia foi uma pecadora infame e impenitente mas agora se tornara uma alma cheia de luz, o monge Zózimo exclama:

“Em verdade, Deus não mentiu quando prometeu que aqueles que purificam a si mesmos serão como Ele em Sua glória”.

Concluamos este breve artigo com a oração do próprio S. Sofrônio ao fim de seu relato:

“Que Deus, que realiza grandes milagres e confere seus dons a todos aqueles que se dirigem a Ele com fé, recompense aqueles que leem este relato e aqueles que o reproduzem. Que Ele conceda-lhes bênçãos junto de Santa Maria do Egito e junto de todos aqueles que agradaram a Deus através da oração e das obras de piedade. Amém”.

Visite: www.bibliotecacatolica.com.br

2 comentários sobre “A Vida de Santa Maria Egipcíaca

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