“Reguemos o mundo com o sangue de nosso coração”: Votos Solenes de Irmão Antônio

Homilia de D. Bernardo Bonowitz, abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo

27 de abril de 2019, Sábado da Oitava da Páscoa

Na semana passada (Semana Santa), comemorávamos o mistério do sofrimento e da morte do Senhor Jesus, e agora (Oitava da Páscoa) o contemplamos gloriosamente ressuscitado. Tradições de longa data nos indicam o paradeiro de alguns dos instrumentos da Paixão e da vestimenta de Jesus crucificado. Segundo umas, o sudário do Senhor se encontra na catedral de Turim; segundo outras, a coroa de espinhos está preservada na catedral de Notre-Dame de Paris; a verdadeira cruz, desmembrada, estaria conservada e reverenciada em milhares de reliquários nos quatro cantos do mundo (inclusive na cruz processional de nosso mosteiro). Mas e a lança, a lança que traspassou o lado do Senhor na cruz?

Ah, vocês não conhecem o destino da lança? Não posso garantir a absoluta veracidade histórica daquilo que me foi comunicado, mas um texto antigo apócrifo relata que quando José de Arimateia foi tirar o corpo de Jesus da cruz, ele ainda estava vivo. E com um imenso esforço, gastando o pouquíssimo de fôlego que lhe restava, Jesus sussurrou a José, “José, a lança fica comigo. Coloque a lança comigo no túmulo.” E José, temente a Deus e discípulo de Jesus, honrou o último desejo do Senhor e, embrulhando a lança no pano junto com o corpo do Senhor morto, sepultou os dois no túmulo escavado na pedra.   

Para que Jesus queria aquela lança? Como explicar este apego da parte do homem mais desapegado da história e bem no instante de sua partida deste mundo passageiro? Com certeza, não queria para si mesmo. De jeito nenhum. Ele a queria para ocasiões muito especiais, como a de hoje, e para usar com pessoas escolhidas desde toda a eternidade. Como o nosso Irmão Antônio, que hoje fará sua consagração monástica.

Uma lança é fisicamente semelhante a vários objetos: a uma caneta, a um dardo, a uma broca. E Jesus aponta a sua lança exatamente no mesmo lugar, no monge, onde Ele mesmo foi por ela ferido: no seu coração.

Primeiro, Jesus quer aplicar a sua lança como caneta para inscrever o seu nome no coração de nosso irmão. Hoje em dia, como sabemos, muitas pessoas fazem tatuagens. Está na moda. E me parece que, mais do que decorar ou adornar o próprio corpo, a motivação de alguém que decide fazer uma tatuagem é marcar-se de uma maneira indelével, de identificar-se inseparavelmente com um nome, um desenho, uma imagem. Aparentemente, não poderia haver nada que assinale uma pessoa mais profundamente do que uma inscrição no próprio corpo. Porém, em inglês há uma expressão: “skin deep” – tão profundo quanto a pele. E quão profunda é a pele? Na verdade, ela não possui profundidade alguma. A pele é o que há de mais superficial. Mas Jesus deseja o contrário; e hoje, pela consagração de Ir. Antônio a si mesmo, ele realizará o contrário. Ele inscreve seu nome na memória, nos afetos, nos pensamentos de nosso Irmão, lá no cerne do seu ser, para que toda a sua reflexão, todo o seu desejo, todo movimento interior saia do mais íntimo do seu coração já marcado com a pessoa de Jesus, já filtrado com a Sua presença. Para o monge que se consagra perpetuamente a Ele, Jesus se torna indelével. De forma invisível mas muito real, de forma análoga à do batismo, Jesus grava seu eterno Nome. Assim como o Senhor diz que inscreveu o nosso nome na palma de sua divina mão, hoje ele escreve Jesus no nível mais profundo de nosso Irmão Antônio. Durante anos, a revista Seleções Reader’s Digest trazia um artigo mensal chamado “A minha pessoa mais inesquecível”. Na Missa de hoje, Jesus se tornará para Ir. Antônio essa pessoa.

Desde o nascimento de nosso Irmão Antônio, Jesus vem praticando e afinando a sua arte. Ele pode jogar o seu dardo, lançar a sua lança, uma única vez. Ele quer atingir o centro vital de Ir. Antônio com uma ferida ao mesmo tempo mortal e vital. Ele não se dará satisfeito com nada menos do que o “bull’s eye”, o olho do touro – o que vocês chamam “alvo”. Ele quer que a sua lança lançada destrua no monge tudo o que é mesquinho, egoísta, fechado em si mesmo, tudo que foge do amor e se refugia no medo, tudo o que se esconde da vida, tudo que recusa os desafios da existência. Ele quer ferir o monge com um dardo medicinal que o abre às pessoas, às situações, às necessidades alheias, às grandes responsabilidades, às grandes alegrias. Torçamos para que a mão de Jesus não trema e que ele acerte em cheio o alvo, onde a essência de Ir. Antônio se encontra.                     

Finalmente, Jesus quer usar a sua lança como uma broca. Assim como a lança fez jorrar sangue e água do coração de Jesus, assim Jesus pretende chegar às fontes de sangue e água no coração de Ir. Antônio e fazer com que estes dois rios fluam abundantemente. O mundo precisa urgentemente da oração de Ir. Antônio e de todos os contemplativos. Oito décadas atrás, falando da necessidade da oração de contemplativos, Santa Edith Stein escreveu “O mundo está em chamas”. Contra todas as expectativas otimistas dos anos 50 e dos idealistas anos 60, os bombeiros não conseguiram apagar o incêndio do qual falava Edith Stein. Pensemos no incêndio da Catedral de Notre Dame de Paris e de seu simbolismo. O mundo precisa da água viva que jorra de nosso coração. Não é fácil para nós mesmos chegar a estas fontes mais profundas de nós mesmos, mesmo nos dedicando diariamente ao exigente regime de oração monástica. Mas é lá que, no poder de Jesus, há cura, há alívio, há salvação.  

O mundo também precisa do sangue do coração de Irmão Antônio e do nosso. A oração não se completa por si mesma. A oração é a metade de uma realidade única; a outra metade é o sacrifício. Não se trata de ir à procura de sacrifícios a fazer. Os sacrifícios virão a nós; eles se apresentarão, se oferecerão. A sabedoria contemplativa sempre afirmou que muita coisa no mundo lá fora, muita coisa profunda e permanente, dependerá de nossas escolhas, de nosso “sim” ou “não” aos sacrifícios que nos advêm. Dizer sim a eles, tentar dizer sim a eles, é consentir em regar o mundo com o sangue de nosso coração.  

A caneta, o dardo, a broca e a lança. O Senhor Jesus o escolheu para uma missão, Irmão Antônio, e hoje ele atira. Desejemos que Ele tenha sucesso hoje, tanto sucesso que você possa fazer suas as palavras do Cântico dos Cânticos: “Estou ferido de amor” (Ct 5, 8). ⊕                               

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O que é a Profissão Solene? O primeiro dever de estado de um monge é amar a Deus de todo o coração. A profissão monástica pressupõe esse amor, e o exprime canonicamente incorporando o monge a um estado de vida cuja razão de ser é o Amor de Deus. Na Profissão Solene o monge entrega toda a sua vida ao Senhor, ao modo de vida monástico, à sua comunidade. Ele o faz professando os votos segundo a Regra de São Bento: Conversão de vida, Estabilidade na comunidade e Obediência.


Leitura sugerida:

“BUSCANDO VERDADEIRAMENTE A DEUS”, de D. Bernardo Bonowitz. Ed. Mensageiro de Santo Antônio, 2013. Parte II: “Como se faz um Monge”.

VIDA MONÁSTICA — Elementos básicos, do Pe. Augustine Roberts, OCSO. Ed. Lumen Christi, 2016 (2a. edição em português). Capítulo 1: “Entrar no Mosteiro”.

“Constituições e Estatutos da Ordem Cisterciense da Estrita Observância”. Capítulo 1, “A Vida Monástica Cisterciense”.

Confira o catálogo da “Livraria do Mosteiro”

4 comentários sobre ““Reguemos o mundo com o sangue de nosso coração”: Votos Solenes de Irmão Antônio

  1. Esta meditação de dom Bernardo traz a profundidade de sermos tanto como monges consagrados ao Senhor , como leigos contemplativos, o coração de Jesus para a humanidade. Que nos deixemos ser atingidos por essa lança divina.
    Bendito seja Deus por cada consagrado/ a, por cada cristão que se deixar tocar pelo Amor de Deus.

    Curtido por 1 pessoa

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