Vigília Pascal: Homilia de D. Bernardo Bonowitz

“A quem buscais? Sou Eu”

Segundo os evangelhos, Jesus apareceu pela primeira vez depois de sua ressurreição na madrugada do domingo da Páscoa. Para mim, este ano houve uma aparição adiantada. Permitam-me compartilhar.

Tudo começou no café de manhã da Quinta-Feira Santa. Enquanto tomava o café, lembrei-me do aviso do monge que foi meu confessor em meu mosteiro de origem, a Abadia São José de Spencer: “Nunca saia do mosteiro sem um trocado. Com certeza você se encontrará com um mendigo, e não vai querer ficar sem nada para lhe dar”. Corri atrás de Irmão Mateus, o tesoureiro de nossa comunidade, e pedi-lhe cinco reais em moedas.

Seguimos então para a Missa dos Santos Óleos, na Catedral. Terminada a missa, passando pela praça em frente à catedral rumo ao estacionamento, eu vi meu mendigo. Ou talvez eu me tenha visto primeiro. Ele tinha entre trinta e quarenta anos, penso eu, estava decentemente vestido, e olhou para mim. Não estendeu a mão para pedir uma esmola, nem se aproximou de mim, não disse nada, mas me deu um sorriso enorme, um sorriso que disse, “Sei que o senhor vai me dar alguma coisa”. Fiquei muito feliz por ter me lembrado do conselho do meu antigo confessor, fui até ele, dei-lhe um real, e me descobri envolvido num abraço caloroso e demorado. Talvez fosse o abraço mais casto que tenha recebido na minha vida. E enquanto meu amigo (notem vocês que é só um pulinho da palavra ‘mendigo’ para a palavra ‘amigo’) me abraçava, ondas passavam dele para mim. Ondas, isto é, águas, rios: rios de felicidade, de saúde, de paz, de sentir-me amado. No fim do abraço, não olhamos um para o outro, não apertamos a mão um do outro, não dissemos nada. Quase sempre quem pede uma ajuda, ao recebê-la diz: ‘Deus o abençoe’. Mas não dessa vez. É como se ele tivesse sumido, mas sei que não sumiu.

Ao longo de toda aquela Quinta-feira Santa, a experiência me voltava muitas vezes à mente e a mente racional tentava compreender o que tinha acontecido. Durante aquele dia, me veio uma luz, que não era a verdadeira luz, mas uma luz precursora, uma luz tipo João Batista. Aquela luz me disse: “Veja, Bernardo, como é ser mendigo. Pense na solidão que eles experimentam. Ninguém os toca, ninguém os abraça. No fundo, muito mais do que dinheiro, o que eles buscam é o contato humano”. Me lembrei de um monge de meu antigo mosteiro que dizia que é cientificamente comprovado que todo ser humano precisa de pelos menos dois bons abraços por dia para conservar seu equilíbrio pessoal. Perguntei-me quantos dias tinham passado desde a última vez que o meu amigo teve oportunidade de abraçar e ser abraçado, e decidi que muitas dias deviam ter transcorrido, e que naquele momento de proximidade, ele, como um camelo, estava enchendo seu tanque zerado e preparando-se para cruzar mais um deserto antes de ter acesso ao consolo de um outro abraço. E fiquei muito feliz por Jesus ter me escolhido para ser aquele que dava este sinal de amizade àquele pobre senhor solitário.  Até arquivei a intuição generalizada que o que o mendigo na rua busca é mais a troca do que o troco, mais o intercâmbio de afeto do que o câmbio da bolsa dos valores. “Pode ficar com o troco”, imaginava o meu amigo dizendo. “O que eu quero é a troca.”

Os hóspedes e visitantes de nosso mosteiro provavelmente não sabem, mas às Sextas-feiras Santas, além do tempo normal da lectio divina entre vigílias e laudes, temos duas horas a mais para ler e rezar, entre os ofícios de Laudes e Tércia. Para mim, é sempre um dos momentos dourados do ano. Neste período, eu estava meditando o trecho do evangelho de João no início da narrativa da Paixão: “A quem buscais” – “A Jesus o Nazareno” –  “Sou eu”; e de repente veio a verdadeira luz, a verdadeira compreensão da graça que vivi na praça. “Seu bobo”, disse a mim mesmo, cheio de alegria, “Não foi você que em nome de Jesus abraçou o pobre mendigo; foi Jesus que em nome de Si mesmo abraçou o pobre mendigo Bernardo”. E como uma reação alérgica anafilática que pode voltar durante as vinte-e-quatro horas seguintes com toda a força da reação original, fui inundado de novo com aquele fluxo de felicidade, paz e um imenso bem estar. Não fui eu que fiz nada; Eu fui o “feito”. Jesus me comunicou algo da infinita riqueza que brota do seu coração de Crucificado e Ressuscitado. Foi por isso que o mendigo-amigo-senhor me abraçou, coração a coração: ele estava realizando uma transfusão.

Não quero afirmar que o meu amigo era, ele mesmo, Jesus de Nazaré – isso só saberei na outra vida; mas quero enfatizar que ele realmente fez as vezes de Jesus de Nazaré. De uma maneira que ultrapassa a minha compreensão, ele fez por mim o que o Ressuscitado faz por nós: ele limpou uma ferida no meu coração. Sim, no dia do lava-pés ele lavou o coração do único na comunidade – o abade – que fica com os pés não lavados; e depois ungiu, e depois encheu com aquelas especiarias das quais eu falava – felicidade, paz, contentamento, amor. Depois fechou o buraco e enviou-me, exultando, no meu caminho.

Esta história que acabo de relatar não é importante, como acontecimento pessoal, para ninguém fora de mim. Mas por outro lado, ele é teologicamente importante para todos nós. Jesus, o homem das dores, tão pobre que ficou totalmente despido de suas vestes, mais pobre que a viúva na coletaria do templo, desprezado, desonrado, totalmente humilhado, morto e sepultado: ele, ele mesmo, vive, transborda de vida, transborda de vida imortal hoje na noite da sua ressurreição gloriosa, e quer abraçar a cada um de nós, não para encontrar consolo e compreensão por seus sofrimentos, mas para consolar a nós, confortar-nos, alegrar-nos e iniciar mais uma vez o nosso processo de transformação nele, por meio do qual ele e eu, ele e cada um de nós, nos tornamos uma só coisa com ele, cheios de sua vida divina e humana. Não é necessário experimentar o incidente que relatei; mas é indispensável – pois esta é a maior alegria dada ao ser humano – experimentar a Jesus vivo, Jesus Ressuscitado, que comunica a cada um de nós a sua vida infinita e imortal. Ele nos envolve em si mesmo e nos enriquece com tudo o que ele tem e ele é. É esta a Páscoa do Senhor. ⊕

D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo

Homilias de D. Bernardo Bonowitz para a Semana Santa 2019:

8 comentários sobre “Vigília Pascal: Homilia de D. Bernardo Bonowitz

  1. Que linda experiência!
    Agradeço por compartilhar.

    Lembrou-me uma das primeiras vezes que estive no Mosteiro e Padre Francisco me disse serenamente… “olha o segredo é tentar olhar tudo com os olhos de Jesus… porque realmente Ele está em tudo…”
    Esse conselho me fez e faz repensar diariamente o quão importa o que é eterno e, assim, desejá-lo.

    Fiquem com Deus +

    Curtido por 2 pessoas

  2. Pingback: Domingo de Ramos: Homilia de D. Bernardo Bonowitz | O Caminho Cisterciense

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