Domingo de Ramos: Homilia de D. Bernardo Bonowitz

Tudo nele era amor e liberdade

Antes de dar início ao seu mistério de salvação, nestes dias que chamamos de Semana Santa, Jesus proclamou, “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, e tenho poder de recebê-la de novo” (Jo 10,18).

Guardemos, em nossa mente e coração, estas duas palavras de Jesus desde o domingo de Ramos até o domingo da Páscoa: “poder” e “vontade”. Tenho o poder de dar a minha vida; ninguém me tira a vida; eu a dou por própria vontade.

Jesus não era uma vítima – nem das circunstâncias, nem de seus limites pessoais, nem dos Romanos, nem dos judeus, nem de um Pai eterno opressor que exigiu o sacrifício de sua vida em pagamento pelos pecados do mundo. Jesus era um homem a quem Deus tinha confiado uma missão – a maior de todas as missões na história da humanidade: a missão de salvar, recriar e transfigurar o mundo. E ele a recebeu com alegria e a cumpriu com absoluta fidelidade e perseverança.

Segundo a Carta aos Hebreus, ele deu o tom à sua vida inteira ao entrar neste mundo: “Eis me aqui, Senhor; venho para fazer com prazer a vossa vontade”. Com prazer! Jesus não tomou sua missão sobre os ombros como um escravo, assim como não levantou a sua cruz e foi para calvário como um escravo. Ele assumiu a sua missão como um amado filho e se alegrou a realizá-la, como um atleta se alegra a correr a maratona e ter a oportunidade de responder a um desafio e de finalmente poder gastar todo o seu fôlego.  

Nossa cultura criou uma imagem tão domesticada e delicada de Jesus que ele chega a parecer a encarnação humana daquela flor “amor-perfeito”. Mas a verdade é bem o contrário. Suas primeiras palavras conservadas são a sua resposta a Maria quando ela se queixa dele ter permanecido no templo em Jerusalém quando a caravana da família já tinha tomado o caminho de volta para Galileia: “Porque me buscáveis? Não sabíeis que precisava estar aqui na casa do meu Pai?” E se achamos que Lucas (é do seu evangelho que este incidente é tirado) bobeou no seu relato, consideremos as suas primeiras palavras a Maria no evangelho de João, nas bodas de Caná: “Que queres de mim, mulher? A minha hora ainda não chegou.”  

Jesus não estava sendo rude ou faltando com o respeito. Mas ele vivia consciente de sua missão – que não era um fardo, mas uma sublime vocação – e nada ia desviá-lo do seu cumprimento. Ele levou a sua vida muito a sério – não por vaidade, mas porque o futuro do universo literalmente dependia dele e do cumprimento de toda a Escritura acerca do Messias. Do mesmo modo, ele amava os fariseus e os saduceus – ele amava a todos, homem livre que ele era. Mas isto não significava que ele ia calar a verdade ou deixar de fazer uma cura ou abafar o fogo que ardia nele porque o seu jeito não era do agrado dos doutores da lei. Ele sabia o que era mais importante – salvar uma vida ou guardar as prescrições da lei acerca do sábado – e o que Jesus sabia, ele fazia. Ele nunca se desviava da orientação da voz do Espírito Santo em sua consciência por causa do respeito humano. A fidelidade à vontade do Pai – do seu Pai – significava mais do que o sábado, o templo, as leis alimentícias, as leis de pureza (que deviam tê-lo mantido longe de leprosos, mortos e pecadores) todas juntas. “O Filho do homem é Senhor do sábado”. É a suprema ousadia de alguém que sabe quem é, sabe o que tem que fazer, e sabe de quem recebeu a sua autoridade.     

Hoje, contemplamos Jesus na plena extensão de sua paixão. “Paixão” é a palavra certa somente se compreendemos que os sofrimentos da Quinta e Sexta-feira Santa não foram impostos, mas livremente assumidos. Desde o início deste dia mais importante na história do mundo, Jesus não é um suplicante. Mesmo na agonia no horto das Oliveiras, não se trata de um Jesus prostrado, “Por favor, pai, por favor. Tudo menos isto…” Sim, ele sofre. Mas não implora o Pai para mudar o curso dos eventos que ele já sabia fazia muito tempo. Ele confessa o horror que a crucifixão iminente inspira nele. E depois ele mesmo resolve o enigma: “Mas Pai, que não seja como eu quero, mas como tu queres.” Aqui Jesus não está se sujeitando a uma vontade paterna implacável. Ele está se unindo livremente à vontade do Pai. Desde agora, ao longo da Paixão havia uma só nele uma só e mesma vontade: a vontade do Pai abraçada e realizada pelo Filho.

Acabamos de ouvir o relato da Paixão. De quem Jesus pediu misericórdia? Dos soldados? Dos sacerdotes? Dos malfeitores? Da multidão? De ninguém! A quem ele disse, vencido. “Parem. Não posso mais. Vocês ganharam”? A ninguém. Ao contrário: na época da máxima dor, aquela dor na qual ninguém pensa em nada que não seja si mesmo, Jesus saía de si para consolar as mulheres de Jerusalém, para perdoar seus próprios carrascos (eu os desafio de fazer algo semelhante), de prometer o  paraíso ao bom ladrão. Ele até fez um presente final ao seu Pai, oferecendo-lhe o que tinha de mais precioso: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”.   

Jesus era sempre soberano; sempre, desde o dia do seu nascimento até o dia de sua morte, era o rei dos judeus. Tudo nele era amor e liberdade. Medo, mesquinhez, segundas intenções, conivências, meio-termos, corrupção, ser interesseiro: tudo isto estava longe, muito longe de Jesus.

Digo isto porque, desde Nietzsche, o cristianismo tem sido considerado a religião dos fracos. Dos fracos e fracassados. E de fato muitos cristãos o vivem assim.

Mas não é assim; nunca foi assim e nunca será assim. Eu não digo que Cristianismo seja a religião dos motoqueiros e fisiculturistas, de Arnold Schwarzenegger e sua turma. Mas digo que o Cristianismo é o descendente e a plenitude da tradição dos patriarcas e dos profetas, de Abraão, Moisés, do Rei Davi, de Jeremias, Isaías e Daniel. Dele brotam Pedro e Paulo, os primeiros mártires, os antigos monges, os santos e doutores. Em todos estes, tudo era amor e liberdade, fidelidade ao Deus de Israel, que é o Pai de Jesus Cristo.

Ao longo desta semana, contemplemos Jesus Cristo crucificado por amor de nós, que livremente entrou em sua Paixão e ressuscitou ao terceiro dia no poder do Espírito que nele habitava. E peçamos a graça de seguir a este Jesus. Na Sexta-feira Santa, diante da cruz desvelada, aclamaremos três vezes a Jesus: “Deus santo, Deus forte, Deus imortal, tende compaixão de nós”. Este é o meu Deus, o nosso Deus. Ele veio para nos salvar – e nos salvou mesmo. Por ele temos redenção e salvação e a possibilidade de viver tal como ele vivia no poder do mesmo Espírito que agora, por seu dom, habita também em nós. ⊕

D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo

Homilias de D. Bernardo Bonowitz para a Semana Santa 2019:

3 comentários sobre “Domingo de Ramos: Homilia de D. Bernardo Bonowitz

  1. “Mas digo que o Cristianismo é o descendente e a plenitude da tradição dos patriarcas e dos profetas, de Abraão, Moisés, do Rei Davi, de Jeremias, Isaías e Daniel. Dele brotam Pedro e Paulo, os primeiros mártires, os antigos monges, os santos e doutores. Em todos estes, tudo era amor e liberdade, fidelidade ao Deus de Israel, que é o Pai de Jesus Cristo.” Muito Obrigada, ❤

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  2. É verdade, para conseguirmos essa liberdade em Deus, diferente da liberdade e felicidade que o mundo oferece, e culmina em mais uma forma de escravidão, devemos fazer como o Mestre, exercitarmo-nos como um fisioculturista o nosso amor desinteressado, só assim.
    Dom Bernardo um verdadeiro profeta dos nossos tempos.
    Obrigado por partilharem conosco.
    A Paz de Jesus!
    Salve Maria Santíssima!!!
    Fraternalmente a todos, Feliz oitava da Páscoa!!!
    Rezemos uns pelos outros nesta corrida para alcançarmos a vida eterna!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: Vigília Pascal: Homilia de D. Bernardo Bonowitz | O Caminho Cisterciense

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