Guerrico de Igny: Segundo Sermão para o Domingo de Ramos

“Quanto a mim, que eu me glorie somente da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”

Sermo 2 in Ramis Palmarum, n. 1

Nestes dias em que celebramos solenemente a Paixão do Senhor e da Cruz, nada se prega com maior razão do que Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. De fato, que outro assunto poderíamos nós pregar com maior fidelidade? Que coisa mais salvífica poderá alguém ouvir? Que ponto de maior proveito para meditar? O que, portanto, será mais piedoso para os fiéis, tão medicinal para os costumes; o que tão bem destrói os pecados,  crucifica os vícios, nutre e revigora as virtudes como a memória do Crucificado?

Dentre os perfeitos, fale Paulo acerca da sabedoria escondida no mistério; a mim, cuja a imperfeição está patente aos olhos dos homens, que eu fale de Cristo crucificado, loucura para os que se perdem – mas para mim e para os que se salvam, clara virtude e sabedoria de Deus; para mim, profunda e nobre filosofia,  pela qual desprezo a insensata sabedoria do mundo e da carne.

Quão perfeito poderia considerar-me se, pelo menos, me tornasse merecedor do Crucificado que,  mercê de Deus,  se tornou para nós não só sabedoria, mas também justiça,  santificação e redenção? Se estiveres inteiramente pregado com Cristo na Cruz, serás sábio,  serás justo, serás santo, serás livre. Porventura não será sábio aquele que, exaltado da terra com Cristo,  saboreia e procura somente as coisas do alto? Não será justo aquele em cujo o corpo foi destruído o pecado,  para que nunca mais sirva ao pecado? Ou ainda santo, quem transformou a si mesmo em hóstia viva,  santa e agradável a Deus? Ou não é verdadeiramente livre quem foi libertado pelo Filho e que,  da liberdade de consciência, tomou confiança em transformá-la para si na própria voz livre do filho: Veio o príncipe deste mundo. Ele nada pode contra mim (Jo 14, 30). No Crucificado se encontra, realmente, a misericórdia e a redenção, nele que libertou a Israel  de todas as suas iniquidades, a fim de se libertar da prisão do príncipe desse mundo. 

Que os que foram redimidos pelo Senhor proclamem que ele os resgatou das mãos do inimigo, e de longe os congregou; e digam ainda, outra vez,  com a voz e a mente de seu Mestre: Quanto a mim, que eu me glorie somente na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6,14). ⊕

Fonte: Lecionário Monástico


O Bem-aventurado Guerrico de Igny nasceu em Tournai, Bélgica, entre 1070 e 1080. Recebeu excelente educação na Escola Catedral de Tournai, onde foi discípulo do grande sábio beneditino Odo de Tournai. Dedicou-se posteriormente à docência, atividade onde alcançou renome. Depois de conhecer pessoalmente São Bernardo, decidiu ingressar no mosteiro de Claraval. Em 1138 foi eleito abade do mosteiro de Igny, na diocese de Reims. Seus sermões, reunidos por seus monges, ensinam como Jesus se forma em nós e cresce por meio de Maria. O abade Guerrico faleceu a 19 de agosto de 1157.

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