Quaresma, renovação do nosso Batismo

Sim, já somos batizados. Mas passamos boa parte de nossa vida sem termos consciência da eficácia espiritual deste Sacramento e do compromisso que ele encerra. Nesta catequese, Bento XVI nos lembra que a Quaresma é uma ocasião para “nascermos de novo” como Cristãos, mediante um contínuo processo de transformação interior e progresso no conhecimento de Cristo.


Bento XVI, Catequese para a Quarta-feira de Cinzas (2007)

A Quarta-feira de Cinzas, que dá início ao Tempo da Quaresma, é para nós, cristãos, um dia particular, caracterizado por um intenso espírito de recolhimento e de reflexão. De fato, empreendemos o caminho da Quaresma feito de escuta da Palavra de Deus, de oração e de penitência. São quarenta dias durante os quais a liturgia nos ajudará a reviver as fases salientes do mistério da salvação.

Como sabemos, o homem foi criado para ser amigo de Deus. Mas o pecado dos antepassados interrompeu esta relação de confiança e de amor e como consequência tornou a humanidade incapaz de realizar a sua vocação originária. Mas graças ao sacrifício redentor de Cristo fomos resgatados do poder do mal: de fato Cristo, escreve o apóstolo João, fez-se vítima de expiação pelos nossos pecados (cf. 1Jo 2, 2); e São Pedro acrescenta: Ele morreu de uma vez para sempre pelos pecados (cf. 1Pd 3, 18).

Quaresma, tempo para mudança interior e progresso no conhecimento de Cristo

Morto em Cristo para o pecado, também o batizado renasce para a vida nova, restabelecido gratuitamente na dignidade de filho de Deus. Por isso na comunidade cristã primitiva o Batismo era considerado como “a primeira ressurreição” (cf. Ap 20, 5; Rm 6, 1-11; Jo 5, 25-28). Portanto, desde as origens a Quaresma é vivida como o tempo da preparação imediata para o Batismo, a ser administrado solenemente durante a Vigília Pascal. Toda a Quaresma é um caminho rumo a este grande encontro com Cristo, esta imersão em Cristo e este renovamento da vida.

Nós já somos batizados, mas o Batismo com frequência não é muito eficaz na nossa vida quotidiana. Por isso, também para nós a Quaresma é um renovado “catecumenato” no qual vamos de novo ao encontro do nosso Batismo para o redescobrir e reviver em profundidade, para nos tornarmos de novo realmente cristãos. Portanto, a Quaresma é uma ocasião para “nos tornarmos de novo” cristãos, mediante um constante processo de mudança interior e de progresso no conhecimento e no amor de Cristo.

A conversão nunca é de uma vez para sempre, mas é um processo, um caminho interior de toda a nossa vida. Este itinerário de conversão evangélica certamente não pode limitar-se a um período particular do ano: é um caminho de cada dia, que deve abraçar toda a existência, todos os dias da nossa vida. Portanto, para cada cristão e para a Igreja, a Quaresma é a estação espiritual propícia para se treinar com maior tenacidade na busca de Deus, abrindo o coração a Cristo.

Santo Agostinho certa vez disse que a nossa vida é uma única prática do desejo de nos aproximarmos de Deus, de nos tornarmos capazes de deixar entrar Deus no nosso ser: “Toda a vida do cristão fervoroso”, ele diz, “é um santo desejo”. Se é assim, na Quaresma somos estimulados ainda mais a arrancar “aos nossos desejos as raízes da vaidade” para educar o coração a desejar, isto é, a amar Deus. “Deus: — diz ainda Santo Agostinho — estas duas sílabas são tudo o que desejamos” (cf. Tract. in Iohn., 4). Esperamos que realmente comecemos a desejar Deus, e assim a desejar a verdadeira vida, o próprio amor e a verdade.

Ressoa então oportuna como nunca a exortação de Jesus, escrita pelo evangelista Marcos: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). O desejo sincero de Deus leva-nos a rejeitar o mal e a realizar o bem. Esta conversão do coração é antes de tudo dom gratuito de Deus, que nos criou para si e em Jesus Cristo nos redimiu: a nossa verdadeira felicidade consiste em permanecer n’Ele (cf. Jo 15, 3). Por esta razão Ele mesmo previne com a sua graça o nosso desejo e acompanha os nossos esforços de conversão.

O que significa converter-se?

O que é converter-se, na realidade? Converter-se significa procurar Deus, estar com Deus, seguir docilmente os ensinamentos do seu Filho, de Jesus Cristo; converter-se não é um esforço para se autorrealizar a si mesmo, porque o ser humano não é o arquiteto do próprio destino eterno. Não fomos nós que nos fizemos. Por isso a autorrealização é uma contradição e é também demasiado pouco para nós. Temos um destino mais nobre.

Poderíamos dizer que a conversão consiste precisamente em não se considerar “criadores” de si mesmos e assim descobrir a verdade, porque não somos autores de nós próprios. A conversão consiste em aceitar livremente e com amor de depender em tudo de Deus, o nosso verdadeiro Criador, de depender do amor. Esta não é uma dependência mas liberdade.

Converter-se significa então não perseguir o nosso sucesso pessoal que é passageiro mas, abandonando qualquer segurança humana, pôr-se com simplicidade e confiança no seguimento do Senhor para que Jesus se torne para todos, como gostava de repetir santa Madre Teresa de Calcutá, “o meu tudo em tudo”. Quem se deixar conquistar por Ele não teme perder a própria vida, porque na Cruz Ele amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós. E precisamente perdendo por amor a nossa vida nós a reencontramos.

Quis realçar o amor imenso que Deus tem por nós na mensagem para a Quaresma, publicada há poucos dias, para que os cristãos de todas as comunidades possam deter-se espiritualmente, durante o tempo quaresmal, com Maria e João, o discípulo predileto, ao lado d’Aquele que consumiu na Cruz pela humanidade o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19, 25).

Sim, queridos irmãos e irmãs, a Cruz é a revelação definitiva do amor e da misericórdia divina também para nós, homens e mulheres desta nossa época, muitas vezes distraídos por preocupações e interesses terrenos e momentâneos. Deus é amor, e o seu amor é o segredo da nossa felicidade. Mas para entrar neste mistério de amor não há outro caminho a não ser o de nos perdermos, de nos doarmos, o caminho da Cruz. “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

Eis por que a liturgia quaresmal, enquanto nos convida a refletir e a rezar, nos estimula a valorizar em maior medida a plenitude e o sacrifício, para rejeitar o pecado e o mal e vencer o egoísmo e a indiferença. A oração, o jejum e a penitência, as obras de caridade para com os irmãos tornam-se assim caminhos espirituais a serem percorridos para regressar a Deus, em resposta às repetidas chamadas à conversão contidas também na liturgia hodierna (cf. Gl 2, 12-13; Mt 6, 16-18).

Queridos irmãos e irmãs, o período quaresmal, que hoje empreendemos com o austero e significativo rito da imposição das Cinzas, seja para todos uma renovada experiência do amor misericordioso de Cristo, que derramou na Cruz o seu sangue por nós. Coloquemo-nos docilmente na sua escola, para aprender a “doar de novo”, por nossa vez, o seu amor ao próximo, especialmente a quantos sofrem e se encontram em dificuldade. É esta a missão de cada discípulo de Cristo, mas para a realizar é necessário permanecer à escuta da sua Palavra e alimentar-se assiduamente do seu Corpo e do seu Sangue.

O itinerário quaresmal, que na Igreja antiga é itinerário para a Iniciação Cristã, para o Batismo e para a Eucaristia, seja para nós batizados um tempo “eucarístico” no qual participar com maior fervor no sacrifício da Eucaristia. A Virgem Maria, que depois de ter partilhado a paixão dolorosa do seu divino Filho, experimentou a alegria da sua ressurreição, nos acompanhe nesta Quaresma rumo ao mistério da Páscoa, revelação suprema do amor de Deus. ⊕


Leitura sugerida:

“Um Caminho de Fé Antigo e Sempre Novo – Homiliário completo de Bento XVI” – Editora Molokai. Esta coleção (4 tomos) reúne a antologia completa das Pregações, Homilias, Discursos, Catequeses e Mensagens do Papa Bento XVI durante seu pontificado.

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