“Que o milagre de Cister se renove em nós, hoje”

26 de janeiro: Solenidade dos Santos Fundadores de Cister

Homilia de D. Bernardo Bonowitz, abade do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo

O nascimento de nossa Ordem é o fruto de quatro elementos em interação: o amor à Regra de São Bento, o despertar da consciência individual, a inspiração do Espírito Santo e o discernimento da Igreja. Vejamos como estes elementos produziram uma Ordem monástica e – hoje, como ontem – pretendem a renovação dessa Ordem.

A Regra de São Bento, tal como foi meditada e compreendida por nossos Pais, é um texto sagrado. É muito mais do que um documento histórico. É o próprio Evangelho de Jesus Cristo, sintetizado e organizado para ser vivida por monges que buscam a face de Deus em caridade e contemplação. Como um projeto de vida, não pode ser dividida em duas partes – espírito e carne; valores e observâncias – com o decorrente resultado de querer aderir a uma, mas não à outra.  Não. A Regra de São Bento não é um peru do qual alguém poderia fazer o seu prato da carne branca e deixar de fora a carne escura, ou vice-versa. A Regra é um todo: valores e práticas que compõem um só organismo. Isto não significa, evidentemente, que todo detalhe é imutável. É por isso que o próprio São Bento deixa muitos pontos a cargo do discernimento do abade. Mas ela é, sobretudo, um caminho de vida, um caminho que conduz à Vida (RB Prol 20).

Esta Regra foi escrita nos inícios do século sexto. A nossa Ordem começa nos últimos anos do século onze, quando um grupo de monges da abadia beneditina de Molesmes vai, aos poucos, tomando consciência de que aí não se está vivendo a Regra com plena autenticidade.  Embora a abadia de Molesmes fosse considerada uma comunidade bem respeitável e não relaxada, as inquietações de um Roberto, um Alberico, um Estevão, não eram meros “escrúpulos”, não se limitavam a picuinhas. Cada um destes homens chegou à ponderada conclusão que havia uma diferença significativa entre a Regra, “escola do serviço do Senhor” (RB Prol 45), e a forma da vida que estavam levando. E como sabiam? Não tanto por uma comparação minuciosa entre a letra da Regra e o livro de costumes de Molesmes, por um pequeno catálogo de divergências; mas sim por uma percepção de que a vida monástica que eles vinham levando a muitos anos não mais produzia os frutos de santidade que seriam esperados de uma conversatio conformada à Regra. Tais frutos, aliás, não são outros que os frutos do Espírito Santo elencados por São Paulo em sua carta aos Gálatas: amor, alegria, paz, etc. Estes monges perceberam a discrepância entre Regra e a situação atual de sua comunidade, entre a medida alta da Regra e o ambiente de estagnação espiritual que experimentavam em seu mosteiro, e cada um em sua consciência suspirava e se perguntava: “E então?”

Acontece que o Espírito Santo, que rondava aquele mosteiro a um bom tempo, estava exatamente à espera desta pergunta! Afinal, foi Ele mesmo que a tinha inspirado. Ele é o espírito da paz, mas às vezes ele é também o espírito de santa inquietação. É ele que renova a face da terra – e às vezes renovar significa algo como derrubar as mesas dos cambistas no templo. Ao escutar a mesma pergunta subir do coração de Roberto, Alberico, Estevão, e de muitos outros no mosteiro de Molesmes, o Espírito Santo sussurrava no coração destes homens: “Vamos fazer algo novo”. “O quê?” “Vamos começar de novo e fundar um novo mosteiro”. E continuava: “Vamos estabelecer um mosteiro, uma conversatio, fiel à Regra. Não fiel no sentido de uma mera reprodução arqueológica, mas fiel no sentido de conduzir os monges aos mais altos cumes da santidade e de doutrina, como diz a própria Regra. É isto que o seu santo patriarca quis; é para isto que ele compôs a sua Regra não foi?” E o Espírito passava de cela em cela, primeiro inspirando os corações individualmente, mas depois dando a cada um a capacidade de reconhecer no rosto, no gesto, na palavra dos outros o selo desta santa conspiração: Novum monasterium, um mosteiro onde podemos andar na novidade da vida.

No ano 1098, na festa de São Bento, naquela época celebrada no dia 21 de março, vinte e um “conspiradores do Espírito Santo” saíram de Molesmes e foram para um lugar não muito distante para dar início ao novo mosteiro. Eles iniciaram uma tarefa extremamente laboriosa – não é uma coisinha à toa construir um mosteiro – mas em seus rostos brilhava alegria e contentamento. Eles foram vencidos pelo Espírito Santo. Não era mais necessário abafar o apelo de suas consciências; agora era-lhes permitido transformar os ditames de suas consciências em vida. A Igreja, velha dama, sempre prudente, observava esta obra nascente e, depois de uma demora considerável, ela disse, com toda simplicidade, “Ok. Nesta vossa iniciativa reconhecemos a obra do Espírito de Cristo. Nós reconhecemos o espírito de São Bento nisto que vocês estão edificando. Nós assumimos esta obra como nossa, abençoada por nós, protegida por nós, e nós a colocamos sob a autoridade direta do sucessor de Pedro”. Se assim não fosse, os vinte um “rebeldes” teriam que retornar ao velho mosteiro. Mas a Igreja intuiu que lá estava a mão de Deus – lá estava a comunhão entre Regra, consciência e inspiração do Espírito Santo. E ela deu seu placet.

Todo ano, nós celebramos este acontecimento, esta revolução tranquila. Com que finalidade? A única possível: inspirar-nos em nossos santos Padres, entrar em seus sentimentos, sermos arrebatados por seu zelo, pedir uma porção do seu espírito, e implorar ao Espírito Santo que venha e faça tudo novo, a fim de que este nosso mosteiro – e cada mosteiro de nossa Ordem – possa tornar-se um Novum Monasterium. Nós pedimos que o milagre de Cister se renove. Em nós. Amém ⊕     


Leitura recomendada:      

Três Monges Rebeldes, por Pe. M. Raymond (monge trapista da Abadia de Gethsemani). Publicado pela primeira vez em português pela Minha Biblioteca Católica, esta obra narra com grande poesia e acuidade histórica a saga dos Pais fundadores de Cister.

Visite: www.bibliotecacatolica.com.br

Recomendamos também:

Os Três Fundadores de Cister, por Jean-Baptiste van Damme. Edições pro-manuscripto da Abadia Cisterciense de Itatinga.  

Regra de São Bento.Vale lembrar que o desejo de “retornar à Regra de São Bento em toda a sua pureza e simplicidade” foi o grande fio condutor da reforma Cisterciense.

Ambos os títulos estão disponíveis na Livraria do Mosteiro

6 comentários sobre ““Que o milagre de Cister se renove em nós, hoje”

    • Sim, “conversatio morum” (em português: “conversão dos costumes”, ou “conversão de vida”) é um dos três votos segundo a Regra de São Bento.
      Ao emitir os votos, o monge compromete-se a “viver monasticamente”, convertendo-se da maneira mundana de viver e abraçando uma nova vida. Esta nova forma de viver, por sua vez, deve levar o monge à conversão interior do coração, que é a razão de ser da vida exterior.

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      • Que interessante: a vida monástica é, em essência, um caminho de conversão contínua, certo?
        Vocês não poderiam falar sobre os votos segundo a Regra de São Bento, num artigo futuro?
        Obrigado.

        Curtido por 1 pessoa

  1. Excelente!! De fato, uma reforma que continua a dar frutos de santidade até hoje. Uma coisa que fiquei interessado em saber foi como Nossa Senhora entrou – e de maneira tão importante – na espiritualidade cisterciense, visto que São Bento não a citou em sua regra. Bom, caso a resposta seja longa demais para o campo dos comentários, deixo a sugestão de um artigo falando sobre isso!
    Muito grato. Deus abençoe.

    Curtido por 1 pessoa

    • A Santíssima Virgem está presente na Ordem Cisterciense desde seu nascimento – de fato, desde antes da Fundação de Cister.
      Durante a gravidez de S. Roberto, a Virgem revelou à sua mãe Emengarda que, pelas mãos daquele que iria nascer de seu ventre, ela – a Virgem Maria – iria realizar uma obra maravilhosa. Cister é, portanto, filho de Maria. Por isso, cada mosteiro e cada monge e monja cisterciense é consagrado a Maria.
      Com Bernardo de Claraval, essa tradição floresceu em todo o seu esplendor.
      A festa patronal da Ordem é a Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, 15 de agosto.

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  2. ”Acontece que o Espírito Santo, que rondava aquele mosteiro a um bom tempo, estava exatamente à espera desta pergunta! Afinal, foi Ele mesmo que a tinha inspirado. Ele é o espírito da paz, mas às vezes ele é também o espírito de santa inquietação. É ele que renova a face da terra – e às vezes renovar significa algo como derrubar as mesas dos cambistas no templo.”

    Ótima reflexão!

    Curtido por 1 pessoa

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