São Gregório de Nissa e a mística do “não-saber”

Gregório de Nissa (c. 330-395), nasceu na Capadócia (Ásia Menor; hoje Turquia). Junto com seu irmão Basílio Magno e Gregório de Nazianzo, formam o grupo dos chamados “Padres Capadócios”, cuja contribuição teológica e espiritual à Igreja do Oriente é imensa. A influência de Gregório de Nissa no pensamento dos Padres Cistercienses é considerável; pretendemos aprofundar o assunto em artigos futuros.

Dentre os grandes Capadócios, Gregório de Nissa talvez seja o metafísico mais sutil e o místico mais profundo.

Para Gregório, o homem é a imagem de Deus e, assim, tão indefinível como Ele, além de todo o saber que pretenda explicá-lo e condicioná-lo. Tal imagem se exprime na liberdade, capacidade dada à pessoa de transcender a natureza e orientá-la para a comunhão. À imagem de um Deus Trinitário, um “Deus-Comunhão”, existe um “Homem Único” numa multiplicidade de pessoas, unidade original rompida pela Queda mas reconstruída em Cristo. Cada um carrega em si a Humanidade inteira. No encontro da Consciência Divina com as consciências humanas, diversos graus “miraculosos” de materialidade podem surgir, conforme a opacidade ou transparência de cada alma. Na humanidade de Cristo o mundo se transfigura, e a semente da ressurreição nos é comunicada pelos “Mistérios” – Sacramentos – da Igreja.

A vida espiritual consiste em purificar em si a Imagem de Deus para que se torne espelho fiel, segundo uma semelhança-participação na Natureza Divina. Comporta três etapas: a ética, metamorfose das paixões; a física, em que o mundo sensível é reabilitado como símbolo e teofania (manifestação de Deus); a metafísica, em que a Alma se dilata na esfera divina.

O conhecimento de Deus é um “não-saber”, no qual a pessoa se lança para além do sensível e do inteligível. É um ritmo de ênstase-êxtase, de luz e trevas, em que a alma, quanto mais se enche da presença divina, mais tende para o Outro, para além de si mesma. Deus, quanto mais é conhecido, mais é desconhecido. E assim o home progride de deslumbramento em deslumbramento, num dinamismo em que a alteridade nunca é separação, nem a unidade é confusão. O mesmo acontece na relação com o próximo na plenitude do “homem único”. Tal é a admirável metafísica da comunhão.

A mística de Gregório de Nissa mostra que o homem não tem outra definição senão a de ser indefinível, porque é feito por e para o ilimitado de Deus.

Extraído e adaptado de: “Fontes – Os místicos cristãos dos primeiros séculos”, por Olivier Clément. Ed. Subiaco, 2003.

Sobre a doutrina do “homem único”, sugerimos a leitura: “Novas Sementes de Contemplação”, de Thomas Merton. Capítulo 10: “Um corpo de ossos quebrados”. Ed. Vozes.

Ambos os títulos estão disponíveis na Livraria do Mosteiro

3 comentários sobre “São Gregório de Nissa e a mística do “não-saber”

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