Advento: Esperar com amor a manifestação de Deus

Homilia de D. Bernardo Bonowitz, abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, para o Primeiro Domingo do Advento

Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21, 28)

Maria, Rainha da Escócia, executada por sua prima, Elizabeth I da Inglaterra, tinha como seu lema, “In my end is my beginning”: “No meu fim está o meu começo”. Por meio deste enigma, ela queria afirmar uma das grandes verdades de nossa fé e de nossa existência: Pela porta da morte entramos na vida eterna. O ponto final é na verdade o ponto inicial numa linha mais maravilhosa do que somos capazes de imaginar.

Neste domingo adentramos o Tempo do Advento, que marca o início do novo ano litúrgico. Se o ano litúrgico pudesse falar, ele diria o aparentemente oposto: “Em meu começo está o meu fim”. Pois hoje, no primeiro dia do novo ano litúrgico, nos encontramos no fim do tempo – não no fim de um ano, mas no fim do próprio tempo, no momento quando o tempo terá chegado ao seu fim último. Para além deste fim, só há uma coisa: a eternidade. Por meio do fim da História, o universo entrará naquilo que transcende a história: viver no eterno presente de Deus.

É uma maravilha e uma misericórdia que a morte do cristão não é a sua destruição, mas sim a sua consumação. Esta é a obra de Cristo que, assumindo a morte, transformou-a para nós em passagem para a plenitude da vida. É uma maravilha e uma misericórdia quase além da cogitação que a dissolução do mundo atual não o levará de volta para caos, para o nada, mas para uma identidade inimaginavelmente bela: a de ser o Reino dos Céus – o novo céu e a nova terra.

O Evangelho deste domingo (Lc 21,25-28.34-36) nos ensina que há uma obra que nos cabe realizar em resposta à obra salvadora de Cristo; há uma preparação a ser feita por nós que nos torna aptos a passar de nossa vida individual mortal para a vida eterna, uma obra que torna o mundo apto a ser transformado em uma nova criação.

Qual é esta obra? Os imperativos do texto do Evangelho nos dão a resposta: Levantai-vos e erguei a cabeça; Tomai cuidado; Ficai atentos; Orai. Nestes quatro imperativos se resume toda a vida do cristão entre a Ascensão do Senhor e sua Segunda Vinda na glória.

Levantai-vos e erguei a cabeça. Podemos completar este texto com vários outros do Novo Testamento: “Buscai as coisas do alto” (Cl 3,1); “A nossa cidadania está nos céus” (Fl 3, 20); “Fixemos o nosso olhar não no visível, mas no invisível” (2Cor 4, 18). “Passaremos pela morte para a vida nós e o mundo criado – se já iniciamos a nossa migração”. E, ainda, a própria oração da missa: “Fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias” (oração da missa do Primeiro Domingo do Advento). Foi Santo Agostinho que disse de maneira inesquecível, Amor meus, pondus meum: O meu amor, o meu desejo, é meu peso. Eu vivo onde eu amo; eu vivo na terra do meu desejo. Se vivo de cabeça erguida para o céu, se eu me deixo apaixonar-me por Cristo e seu Reino e o aguardo ansiosamente, eu já estou em peregrinação para lá, impulsionado por meu desejo.

Em seguida, a contra-indicação: Tomai cuidado. Tomai cuidado para não perder este ímpeto de desejo, para não perder-se no turbilhão de avidez e preocupação terrena que nos ilude e nos faz pensar que este mundo é tudo e que não há nenhum horizonte transcendental. Evitai a todo custo a doença do “coração insensível”, que não experimenta o apelo nem do amor divino nem do amor humano, mas apenas a compulsão de buscar a gratificação de todos os apetites egoístas. Se o desejo do céu é a vida eterna antecipada, o coração insensível é a morte eterna adiantada.

Ficai atentos: O que Deus pede de mim hoje? Qual graça ele derrama sobre mim hoje?  Como servi-lo hoje? Como ser ministro de sua bondade hoje? Como não desperdiçar o dia de hoje em queixas e ressentimentos e lamentações e meias-fidelidades? Vivei despertos para o significado imenso de todo hoje, enquanto ainda há um hoje a ser vivido.

Orai. Orai a todo momento, diz Jesus. Estou encontrando no Evangelho um número cada vez maior de referências à oração contínua. Por quê? O próprio Jesus nos responde: “A fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”. Mas, por favor, quando orardes, pensai no plural. Orai não só por você, mas orai por todos. Quantas pessoas não sabem da vinda do Filho do Homem, não estão preparadas para ela, estão invertendo todos os imperativos e não fazem a menor ideia do dia que “cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”. Orai por eles, irmãos. Acreditai no poder da oração e empregai este poder em generosa intercessão.

Irmãos, seguremos este primeiro momento de Advento. Não corramos ainda para Belém. Escutemos neste Advento as profecias de Isaías e as advertências de João Batista em seu sentido escatológico.

E pensemos com muita alegria e desejo nas últimas palavras do Evangelho: Enquanto as nações se angustiarem, e os homens desmaiarem de medo, e o sol, a lua e as estrelas forem abaladas, e os habitantes da terra forem presos na armadilha, lá estará você – imagine! – em pé, diante do Filho do Homem. O mundo em ruínas e você em pé. “Jesus? É o Senhor? Estava esperando muito a sua chegada”. Naquele dia, queira Deus, haverá uma coroa para você e para mim, e não somente para nós, mas para “todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação” (2 Tm 4,8).

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