“Para que não pereçam, mas tenham a Vida Eterna”

Sobre as leituras da festa da Exaltação da Santa Cruz à luz do momento presente da Igreja

Como mencionamos no post sobre a festa da Exaltação da Santa Cruzas leituras desta missa são de tal modo atuais para o momento presente da Igreja que lhe dedicamos um artigo à parte.


Na primeira leitura desta celebração (Números 21,4-9), nos vemos junto com Moisés e o povo hebreu no meio da longa jornada sob o sol escaldante do deserto. Uma jornada que, partindo do Egito, a terra da escravidão, conduzirá o Povo da Aliança para a Terra Prometida, a terra “onde corre leite e mel”, a terra onde o povo será livre para estabelecer uma sociedade santa, segundo o coração de Deus. Mas a viagem é dura e penosa, e muitos no povo começam a se perguntar se o preço da Aliança não seria alto demais. “Por que nos fizeste sair da terra do Egito para morrermos neste deserto?”. Então o povo decide, em seu coração, dar as costas para o projeto de Deus e voltar para o Egito. O castigo divino não tarda, e o acampamento é infestado de serpentes venenosas que começam a dizimar o povo.

O tema central dessa narrativa é a tentação da idolatria: rejeitar a Aliança com Deus e suas exigências, para acomodar-se aos ídolos e aos costumes mundanos.

Sabemos que as circunstâncias do Êxodo são para nós figuras (do grego: typós) para nos dar a conhecer as realidades espirituais da Nova Aliança. O próprio Senhor Jesus o afirma quando diz a Nicodemos: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado” (Jo 3, 14).

Também nós, o povo da Nova Aliança, estamos em um êxodo: o Novo Êxodo. Uma jornada da morte para a Vida: “Para que todos os que crerem no Filho do Homem não pereçam, mas tenham a vida eterna”. Do mesmo modo como Israel, ao longo do Êxodo, foi assobrado pela tentação de voltar para o Egito e para a idolatria, assim nos encontramos também nós, o Novo Israel.

E qual a grande tentação da Igreja neste momento histórico? Em meio a um mundo que rejeitou Deus e está fechando-se cada vez mais em si mesmo, a grande tentação da Igreja é, também ela, querer emancipar-se d’Ele e fechar-se em si mesma: dar as costas para a Aliança com Deus — a Nova e Eterna Aliança, no sangue do Filho de Deus — e preferir uma aliança barata com o “espírito do século”.

Aos olhos de muitos, talvez isso não pareça algo assim tão grave. Mas ouçamos o que diz São Bento em sua Regra, citando o livro dos Provérbios: “Há caminhos que parecem bons aos olhos dos homens, mas que conduzem diretamente para o inferno” (Pr 16, 25 ; RB 7:21). Para os que escolheram tal caminho, os frutos se tornam agora manifestos: a corrupção moral e espiritual patentes nos gravíssimos casos de abusos sexuais perpetrados por amplos setores do clero e da vida religiosa, que agora vêm a público na mídia e em relatórios oficiais (ver a “Carta do papa Francisco ao povo de Deus”, 20/8/2018).

Ou seja: uma vez fechada a porta da frente para Deus, abrimos a porta dos fundos para as serpentes que rastejam pela noite.

Contudo, é certo Deus estende à Igreja, ontem como hoje, a sua misericórdia e a sua salvação. Por isso Jesus nos diz: “Assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a Vida Eterna. Pois Deus não enviou seu filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.

Ouçamos Santo Agostinho:

«Meus irmãos, na esperança de sermos curados do pecado, olhemos para Cristo crucificado, pois ele diz: Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Assim como outrora os que olhavam para a serpente de bronze não morriam, de igual modo os que, pela fé, contemplam o sacrifício de Cristo são curados da morte do pecado. Aqueles eram curados da morte para uma vida temporal, mas Cristo afirma aqui: para que tenham a vida eterna. Tal é a diferença entre a figura (typós) e a realidade: a figura concedia apenas uma vida temporal; a realidade, da qual ela era figura, concede a vida eterna».
do Comentário sobre o evangelho de São João, Tract. 12, 10-11

Voltemo-nos para Deus, pois n’Ele está a nossa esperança. E imploremos Sua misericórdia para que possamos retomar, com empenho redobrado, o caminho da Justiça.

Jerusalem-Cross-IHS

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