“Um coração como o de Jesus”: Homilia da profissão monástica de Irmão Gregório

Profissão monástica (votos temporários) de Irmão Gregório, do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, 8 de junho de 2018

Homilia de D. Bernardo Bonowitz, Abade

“É um abismo o coração de cada homem”, diz o salmista. Ele não está falando do tamanho deste coração — digamos, tamanho GG — nem da sua profundidade, mas da sua complexidade, da sua natureza contraditória e incoerente, do caráter insondável do coração humano que o torna opaco tanto para si mesmo quanto para seus próximos. “Não entendo o que faço”, escreve São Paulo, “pois não faço o que quero, e faço o que não quero”. E o profeta Jeremias acrescenta: “Não há nada de mais astucioso do que o coração do homem.”

Ainda assim, é o coração do homem que estamos celebrando na liturgia de hoje. A solenidade do Sagrado Coração não é uma festa da divindade de Cristo, mas sim da Sua humanidade. E seu foco principal é o abismo: o abismo do coração de Jesus.

Este era, em sua estrutura e potencialidades, semelhante ao nosso. Só que lhe faltava alguma coisa – mas este “defeito” era precisamente sua maior qualidade. Dostoiévski afirma que “A linha entre o bem e o mal passa pelo centro de cada coração”. Mas era precisamente esta linha que faltava em Jesus, esta linha divisória que torna o coração ambivalente (ambi-volente?) e que torna a nossa vida interior um verdadeiro campo de batalha. Para nós, homens decaídos, fazer o bem é uma luta, porque em um dos lados de nosso coração há a torcida organizada do Mal; e para nós fazer o mal é igualmente uma luta, porque na arquibancada oposta há os fãs do Bem. Esta divisão não existia em Jesus. A dúvida, o engano, a mentira, a duplicidade nunca entraram nele. Nós temos um cor duplex (um coração dividido, “com dobras”); mas Jesus tem um cor simplex (simples, unificado, “sem dobras”). Um coração bem-aventurado.

E este coração livre de toda ambigüidade não era apenas uma posse pessoal em Jesus, uma característica particular. A Igreja na celebração de hoje expressa seu maravilhamento não tanto pelas qualidades do seu coração quanto pelas decorrências eclesiais destas qualidades. Como íntegro e unificado, o coração humano de Jesus é capaz de operar tal como todo coração humano deveria estar operando, conforme o projeto do fabricante. Este coração é capaz de receber, conter e transmitir o amor de Deus para tudo ao seu redor: pessoas, animais, plantas – toda a Criação. Um coração capaz de olhar para tudo com a divina compaixão, mesmo sendo ele mesmo humano; um coração capaz de cumprir, em chave humana, os planos divinos para a criação. Capaz de tornar-se uma fonte de vida para outras vidas; capaz e disposto a pagar qualquer preço pessoal para o bem dos demais. Seu coração simples e descomplicado é capaz de acolher e conformar-se completamente à vida divina que se comunica a ele – vida divina que deseja se comunicar a todo coração. Por ser livre de ambigüidade, não havia limites para a sua receptividade ao amor de Deus para com a Humanidade, mesmo quando este amor divino agisse nele de forma sacrifical, como de fato fez ao levar Jesus a aceitar a paixão e a cruz. O coração dividido se torna cada vez mais apertado, murcha. O coração indiviso vai crescendo até tornar-se, ele também, um abismo.

Aqui voltamos para o salmista que diz, “O abismo atrai outro abismo.” O próprio Jesus disse: “E eu, quando for elevado, atrairei todos a mim”. Essa verdade se manifesta no passo que você está prestes a tomar, Irmão Gregório. De forma misteriosa mas segura, o abismo que é o coração de Jesus atraiu, e continua a atrair, o seu coração. Ele quer associar o seu coração a Si mesmo: quer assemelhar o seu coração ao d’Ele e quer aproveitar do seu coração como um canal secundário para a comunicação do amor de Deus para o mundo. Isto, com certeza, exigirá trabalho — para Jesus e para você. Nem mesmo para um Deus-homem é fácil remover as contradições e incoerências de um coração humano; tampouco para um jovem monge fervoroso é fácil submeter-se a esta simplificação. Sim, o nosso coração é complicado.

Mas hoje você esta facilitando a tarefa de Deus, poderíamos até dizer, possibilitando. Fidelidade diária nas práticas da vida monástica (conversio morum), perseverança em aderir a este projeto do Senhor para você (estabilidade) e obediência ao abade e seus pais espirituais dentro da comunidade – o que estes votos pretendem? Pretendem dar acesso para Deus ao seu coração, para reproduzir em você, na medida de Sua graça e do seu consentimento, o que Ele realizou no coração de Jesus. São Bento diz que o claustro do mosteiro é uma oficina – mas, mas de fato, a verdadeira oficina é seu coração. E Deus é o mecânico. Deixe-o trabalhar em você tanto quanto ele quiser. A intuição dele é perfeita, o toque acertado, a técnica é de última geração. Apenas persevere em seu propósito, Irmão Gregório. Cada vez que, ao longo desta longa caminhada, Deus lhe perguntar, como se estivesse meio-distraído, ”O que era que você queria?”, fique repetindo a mesma coisa: “Um coração como o de Jesus”. Ele sabe levar a boa obra à perfeição, até o dia de Cristo Jesus. Amém ⊕

auspice maria

5 comentários sobre ““Um coração como o de Jesus”: Homilia da profissão monástica de Irmão Gregório

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