“Uma dupla porção do espírito de São Rafael Barón”: Homilia de D. Bernardo Bonowitz para a entrada no noviciado de um Irmão

Homilia para a entrada no noviciado de Irmão Pacômio, do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo.

27 de abril de 2018, memória de São Rafael Arnaiz Barón

Sabemos que a fé Cristã não contempla a crença na reencarnação. De fato, a esperança Cristã está orientada para algo muito melhor: a Ressurreição. Seja a ressurreição plena na qual entraremos quando Cristo voltar na sua glória, seja a ressurreição já nesta vida: o novo nascimento no Espírito — ao qual podemos dar o nome de “porcionamento do espírito”.

Se não me engano, a primeira referência na Bíblia a este “porcionamento do Espírito” encontra-se no Livro de Números, onde Deus tira uma “porção” do espírito que ele tinha derramado sobre Moisés e a reparte entre os setenta dos anciãos do povo, que começam a profetizar.

Também no Livro dos Reis lemos que, na hora da morte do grande profeta Elias, seu discípulo Eliseu pede — e recebe — uma dupla porção do espírito do seu Mestre.

E o momento mais importante, teologicamente, deste porcionamento é o dia de Pentecostes, quando Jesus infunde — reparte — seu Espírito em seus discípulos, transformando-os assim em Apóstolos, enviados para evangelizar o mundo.

Falo deste fenômeno nesta celebração porque se insere no mistério da vocação de nosso Irmão Pacômio e é parte do seu “sonho vocacional” — isto é, da forma que ele espera que a sua vocação vá assumir. Irmão Pacômio desejou com grande expectativa ingressar no noviciado na memória de São Rafael Arnaiz Barón (27 de abril). Este desejo vai muito além de sentimentalismo, além mesmo de uma vontade de ter São Rafael como padroeiro ou intercessor. Estes aspectos certamente fazem parte do desejo de nosso irmão, mas, como eu entendo, o seu desejo maior é ser formado por São Rafael, e ser conformado a ele. Em outras palavras: ele está pedindo uma porção do espírito de São Rafael.

Como vemos no caso de Elias e Eliseu, ou de Jesus os Apóstolos, a comunicação de uma porção do espírito do mestre não constitui um “primeiro passo” no relacionamento com o mestre, mas a maturação de um longo processo. Um processo de informação, imitação e configuração.

Ir. Pacômio terá que dedicar-se à leitura e ao estudo das obras de São Rafael, e não uma vez só, mas habitualmente. Como poderá ele assumir a mentalidade do Irmão Rafael se não a conhece, se não a compreende?

Juntamente com isso, ele terá que empenhar-se em cultivar as virtudes particulares de São Rafael: sua grande fidelidade à oração, sua observância de silêncio e solidão, sua grande simplicidade, sua alegria a toda prova. Como Santa Teresinha de Lisieux, que um dia respondeu à simples pergunta “Como vai?” com as palavras “Estou sofrendo muito e sou muito feliz”, nosso Irmão Pacômio terá que aprender a viver este paradoxo: o sofrimento gozoso, a fusão dos dois primeiros mistérios do Santo Rosário.

Depois da informação e da imitação, segue a configuração. Nosso Irmão Pacômio deverá consentir que São Rafael trabalhe em seu interior, ajudando o Senhor a purificá-lo e santificá-lo. Este é um ato de grande confiança. Se já é grande confiança dar permissão ao próprio Jesus para agir em nosso interior, ainda mais a um mero santo, e um que nem cem anos de céu tem de “debaixo de sua cintura”. Mas é um passo que precisa ser dado, uma vez que a forma particular de santidade trapista que Irmão Pacômio almeja é a forma “rafaelense”.

Como abade, eu não consentiria que um postulante pedisse o porcionamento do espírito de qualquer santo. Mas a espiritualidade de São Rafael é uma destilação pura da nossa herança cisterciense-trapista: O amor a Deus como supremo critério; a generosidade em dar a Jesus tudo aquilo que Ele venha a pedir; a fidelidade nas coisas pequenas e grandes; a transformação de uma sensibilidade  pessoal em uma disposição para servir o bem comum, até o esquecimento de si mesmo; a veneração da Cruz em todas as circunstâncias, sempre iluminada pelos raios da ressurreição.

Temos que reconhecer que nosso Irmão Pacômio ainda não é tudo isso… Pois o processo está apenas começando, e incluirá momentos de cadeira do dentista, da mesa de operações do cirurgião e do sofá do analista. Foi assim para São Rafael – e será assim para você, Irmão. Para chegar ao seu destino com segurança, Irmão Pacômio, guarde em seu coração os primeiros versículos da Carta de São Tiago (Tg 1, 2-4):

Meu irmão, tende por motivo de grande alegria o ser submetido a múltiplas provas, pois sabei que, ao ser provada, a fé produz perseverança; a perseverança torna a obra perfeita, e assim sereis perfeito e íntegro, sem nenhuma deficiência.           

São Rafael Arnaiz Barón, rogai por nós. ⊕

beato_rafael

São Rafael Arnaiz Baron (1911-1938)

auspice maria

10 comentários sobre ““Uma dupla porção do espírito de São Rafael Barón”: Homilia de D. Bernardo Bonowitz para a entrada no noviciado de um Irmão

  1. Parabéns, Irmão e votos de grande santidade, que São Rafael te ensine os caminhos que deves seguir. para ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo.
    Muito lindo votos de perseverança.
    Ir. Rosélia ascj

    Curtido por 1 pessoa

  2. Que grande consolo saber que o porcionamento do Espírito é algo real e frutífero. Que o Espírito de Deus nos ilumine para que nossa fé aumente e que refinemos nossa percepção da brisa divina. Que Deus abençoe o caminho do Ir Pacômio.

    Curtido por 2 pessoas

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