“Amou-os até o fim”: Meditação para a solenidade de Corpus Christi

« Deus se comunica, Deus se dá a si mesmo, sem por isso deixar de ter tudo ».

O paradoxo desta afirmação nos fascina pelo vislumbre que ela nos dá da infinitude de Deus. Contudo, há algo de irreal nesta afirmação, porque contraria toda a nossa experiência de dar e de doar-nos. Quando eu dou, quando eu partilho, eu fico com menos. A medida do meu dom é a medida da minha diminuição. Exatamente o que dou a outrem é o que não tenho mais.

Esta é a verdadeira glória e nobreza do dom: que o amor e a compaixão para com o outro é capaz de levar-me a me privar, para que o outro possa ter. O elemento de sacrifício é precisamente o coração do dom: a vitória da preferência pelo bem do outro sobre o apego ao meu próprio bem.

Este é o Jesus que contemplamos nesta festa de Corpus Christi. Não aquele que diz “Tomai e comei, porque tenho outro corpo em reserva”; ou “Tomai e bebei porque tenho um banco de sangue inesgotável”. Não: no fim da sagrada Comunhão, a patena está esvaziada, e o cálice, literalmente es–gota–do; não resta uma única gota, nenhuma partícula permanece não consumida. Jesus dá-nos sua vida por inteiro — seu corpo e seu sangue — para ser o alimento dos seus fiéis. O milagre da multiplicação dos pães prefigura esta realidade; mas só a Última Ceia a exprime plenamente.

Ainda que este esvaziamento de Jesus seja o ponto central de sua existência, sabemos que ele não foi o ponto final. Jesus receberá, sim, nova vida no Espírito, vida ressuscitada; mas somente depois de ter “consumado” com sua vida humana, depois de tê-la doado até o fim. E depois de tê-la doado, não para retomá-la de novo — ele não morre para poder ressurgir — mas depois de tê-la dado para nos nutrir, para nos vivificar.

É como o grão de trigo, caído, morto e tornado fecundo na vida de muitos, que ele ressurge; quando a sua ressurreição é puro dom do Pai, quando não lhe resta nenhuma base sobre o qual ele pode reconstruir-se. Quando ele é reduzido a nada. É assim que Deus pode fazer dele uma “nova criação”.

Nesta solenidade de Corpus Christi, contemplamos Jesus no Santíssimo Sacramento, não como algo “preservado”, mas como Alguém ilimitadamente doado. Este é o Jesus que recebemos na Santa Comunhão – não um Jesus que quer salvar a sua vida, mas aquele que livremente a perde: perde-a entregando-a.

Esta é a maturidade da vocação monástica e do discipulado de Cristo: o dom total de si a Deus e à Comunidade – dom integral, incondicional; dom não revogável, realizado não com a intenção de posteriormente pedir devolução de nossa “mercadoria” mas que, amparado pela graça de Deus, resiste ao fortíssimo instinto humano de nos reapoderar-nos a nós mesmos, afirmando altiva e desesperadamente ao mesmo tempo: “A minha vida é minha. Nasci para possuir-me a mim mesmo”.

Que a hóstia consumida, o vinho tomado — que tornam Jesus “excorporado” e “exsanguinado” e nos fazem viver — operem em nós de modo irresistível para nos tornar capazes de realmente doar as nossas vidas até o fim, a exemplo de nosso Mestre e Redentor: “Jesus amou-nos até o fim”.

Este caminho é exigente, irmãos. Esta é vida monástica, é o Evangelho autêntico. ⊕

11 comentários sobre ““Amou-os até o fim”: Meditação para a solenidade de Corpus Christi

  1. Texto, radical(no sentido de profundidade) e intenso(no sentido das palavras)! Seguir a Jesus Cristo nos coloca na condição de abandono. Um abandono no Amor, na Generosidade e na Simplicidade. Doar de si mesmos(as) em Cristo, sim, é o Abandono Amoroso em que sentimos dentro do nosso coração que estamos cada vez mais cheios(as) de ESPERANÇA. Uma esperança insistentemente carregada pela FÉ. Não tenhamos medo em nos abandonarmos em Cristo. Viver em uma favela por alguns anos, ministrar aulas para crianças e jovens por muitos anos, dedicar a vida pela maternidade e mesmo depois de a vida, talvez em alguns momentos tentar nos dizer: agora chega: “descanse” . Não! Em Cristo, e na entrega plena, insistir, e buscar mais radicalmente ainda pela nossa Vocação Integral. Sim, é na COMUNIDADE que encontramos respostas: “Comunidade lugar do perdão e da festa”! ❤ Agradeço mais uma vez a Comissão Cisterciense pelos artigos, textos, fotos. Feitos com delicadeza, profundidade e perfeição. Com meu carinho, MUITÍSSIMO OBRIGADA ❤

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  2. Muito profundo,intrigante e questionador.
    Esse artigo nos coloca -seres humanos instintivamente narcísicos- em vários questionamentos e nos faz refletir sobre até quanto é até onde podemos “perder para ganhar .
    Lindo artigo. Quem escreveu ?
    Parabéns mais uma vez comissão Cisterciense.
    Obrigado por essa página.

    Curtido por 3 pessoas

    • Pax.
      Os artigos do Caminho Cisterciense são escritos por monges e monjas da família cisterciense envolvidos com este projeto (exceto quando indicado outro autor).
      Este texto, por exemplo, foi escrito por D. Bernardo Bonowitz, para a festa de Corpus Christi.
      Agradecemos sinceramente os seguidores e leitores do blog por seu apoio, e por compartilharem seus comentários conosco.

      Curtido por 4 pessoas

  3. Eu nunca havia meditado Corpus Christi com essa profundidade; a doação de Cristo foi completa, perfeita. Doando livremente sua infinidade, resgatou toda a criação, tanto daqueles que o precederam na humanidade, o primeiro Adão, bem como a mim e a todas as gerações futuras pelos séculos dos séculos. Que eu possa, no último momento da minha vida aprender, oh Senhor, essa lição. Dá-me conversão e coragem.

    Curtido por 2 pessoas

  4. Mas o Amor, quanto mais se dá, mais se tem…
    Uma doação dentro do Amor não tem perdas e não pede nada em retorno.
    Se estamos vivendo o evangelho plenamente, somos Amor manifestado,
    a doação é integral e não pede nada de volta…
    Essa é a experiência do Amor pleno, na forma que for…
    Que seja na vida religiosa, que seja na vida familiar ou de casal, pode até ser no amor da amizade…
    “Minha recompensa tão ilimitada quanto o mar
    meu amor tão infinito
    quanto mais eu te dou, mais eu tenho
    Pois ambos são infinitos.” (Shakespeare)

    Curtido por 2 pessoas

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